Conceitos, Terminologia, Descrição e Caracterização de Agente

AUTOR - Kelly Cristina Cancela - kelly.cancela@bicmadeiras.com.br

Obs - este texto foi desenvolvido pela autora na disciplina " Controle Biológico Florestal, no Curso de Pós-Graduação em Engenharia Florestal, área de concentração Silvicultura, do Setor de Ciências Agrárias da Universidade Federal do Paraná", ministrada pelo Prof. Dr. Nilton José Sousa. Em função disto, o texto é uma compilação de várias fontes bibliográficas, desta forma, as informações aqui descritas não devem ser utilizadas em revisões bibliográficas de teses, dissertações, monografias, artigos, resumos ou outras formas de produção bibliográfica, como se fosse de autoria do autor acima citado. Para este tipo de citação recomendamos aos usuários que consultem os trabalhos originais citados na relação de bibliografias consultadas.

Conceito

Controle biológico é um fenômeno que acontece naturalmente na natureza que consiste na regulação do número de plantas e animais por inimigos naturais. É uma estratégia que o homem há muito tempo vem utilizando, explorando inimigos naturais para o controle de patógenos, pragas e ervas daninhas - ação considerada uma arte por muitos cientistas, embora vários esforços tenham sido feitos para transferir o controle biológico para o domínio da ciência.

O termo Controle Biológico foi empregado pela primeira vez em 1919, por H.S. Smith, para designar o uso de inimigos naturais para o controle de insetos-praga. Posteriormente essa expressão foi usada para designar todas as formas de controle, alternativas aos produtos químicos, que envolvessem métodos biológicos. Assim, o Controle Biológico denominava técnicas tão diversas como o uso de variedades resistentes, rotação de culturas, antecipar ou retardar as épocas de plantio e colheita, queima de restos de culturas, destruição de ramos e frutos atacados, uso de atraentes e repelentes, de feromônios e de armadilhas.

Entretanto, esta denominação para os métodos citados não é unanimemente aceita pelos especialistas da área. Estes consideram o Controle Biológico como uma ciência que trata da ação de inimigos naturais na regulação das populações de seus hospedeiros e suas presas, sejam eles insetos pragas ou ervas daninhas.

O controle biológico é o componente fundamental do equilíbrio da Natureza, cuja essência está baseada no mecanismo da densidade recíproca, isto é, com o aumento da densidade populacional da presa, ou do hospedeiro, os predadores, ou parasitos, tendo maior quantidade de alimento disponível, também aumentam em número. Desta maneira, os inimigos naturais causam um declínio na população da praga. Posteriormente, a população do inimigo natural diminui com a queda no número de presas, ou hospedeiros, permitindo que a população da praga se recupere e volte a crescer. Neste caso, os parasitos e predadores são agentes de mortalidade dependentes da densidade populacional da praga. Por outro lado, os fatores físicos de mortalidade, como a temperatura e a umidade, podem impedir, temporariamente, o aumento no numero de indivíduos da praga, independente do tamanho da população desta. Estes são os fatores de mortalidade independentes da densidade. Portanto, é possível detectar o efeito da mudança de diferentes fatores ambientais, dependentes e independentes da densidade populacional, na densidade de uma população, em diferentes tipos de ambientes.

Em comparação ao controle químico o controle biológico apresenta vantagens e desvantagens. Entre as vantagens pode-se citar que é uma medida atóxica, não provoca desequilíbrio, não possui contra-indicações, propicia um controle mais extenso e é eficiente quando não existe maneira de se utilizar o controle químico. Em compensação requer mais tecnologia, possui um efeito mais lento, não é de tão fácil aquisição, nem sempre pode ser aplicado em qualquer época do ano e, geralmente, é mais caro.

Para alcançar resultados, todo programa de controle biológico deve começar com o reconhecimento dos inimigos naturais da "praga-chave da cultura" (principal organismo que causa danos econômicos à lavouras). Uma vez identificada a espécie e o comportamento da "praga" em questão, o principal desafio dos centros de pesquisa diz respeito a reprodução desse inimigo natural em grandes quantidades e com custos reduzidos.

Dentro do controle biológico podemos constatar duas fases distintas: o controle biológico sem a interferência (ou seja, na forma como é encontrado na natureza) e aquele que é feito mediante introdução, manipulação e aplicação de organismos capazes de agir de forma contrária a pragas.

Terminologia

Tipos de Controle Biológico:

Controle biológico artificial é quando o homem interfere de modo a proporcionar um aumento de seres predadores, parasitos ou patógenos, podendo esses serem: insetos (mais atuantes no controle biológico natural), fungos , vírus, bactérias , nematóides e ácaros.

Controle biológico clássico . Importação e colonização de parasitóides ou predadores, visando ao controle de pragas exóticas (eventualmente nativas). De maneira geral, as liberações são realizadas com um pequeno número de insetos por uma ou mais vezes em um mesmo local. Neste caso o controle biológico é visto como uma medida de controle em longo prazo, pois a população dos inimigos naturais tende a aumentar com o passar do tempo e, portanto, somente se aplica a culturas semiperenes ou perenes.

Controle biológico natural . Refere-se a população de inimigos que ocorrem naturalmente.São muito importantes em programas de manejo de pragas, pois são responsáveis pela mortalidade natural no agroecossistema e, conseqüentemente, pela manutenção de um nível de equilíbrio das pragas.

Controle biológico aplicado. Trata-se de liberações inundativas de parasitóides ou predadores, após criação massal em laboratório. Esse tipo de controle biológico é bem aceito pelo usuário, pois tem um tipo de ação rápida, muito semelhante à de inseticidas convencionais. O CBA refere-se ao preceito básico de controle biológico atualmente chamado de multiplicação (criações massais), que evoluiu muito com o desenvolvimento das dietas artificiais para insetos, especialmente a partir da década de 70.

DEFINIÇÕES

Parasita. É um organismo usualmente menor que o hospedeiro. Os parasitas podem completar seu ciclo de vida em um único hospedeiro e na maioria das vezes não matam o hospedeiro. Ex. piolho.

Parasitóide. Inicialmente parasitam o hospedeiro causando sua morte até o final do seu ciclo evolutivo.É muitas vezes do mesmo tamanho do hospedeiro, mata este e exige somente um indivíduo para completar o desenvolvimento; o adulto tem vida livre.

Segundo a forma como se desenvolvem no corpo do hospedeiro podem ser:

•  Endoparasitóides - quando se desenvolvem dentro do corpo do hospedeiro, Ectoparasitóides - quando se desenvolvem fora do corpo do hospedeiro, Hiperparasitóide s - quando se desenvolve em outro parasitóide.

•  Superparasitismo - fenômeno pelo qual vários indivíduos de uma espécie de parasitóide podem se desenvolver em um hospedeiro.

•  Parasitismo múltiplo - situação na qual mais de uma espécie de parasitóide ocorre dentro ou sobre um hospedeiro.

•  Adelfoparasitismo – Fenômeno no qual uma espécies de parasitóide é parasito de si mesma.

•  Cleptoparasitismo – Fenômeno no qual um parasitóide ataca preferencialmente hospedeiros que já estejam parasitados por outras espécies. O cleptoparasitóide não é hiperparasitóide, mas no caso existe um multiparasitismo , no qual há competição das duas espécies, com a espécie cleptoparasitóide usualmente dominando.

•  Heterônomos. O macho e a fêmea do parasitóide têm hospedeiros diferentes.

•  Poliembrionia. O adulto coloca um único ovo por hospedeiro, o qual, posteriormente, divide-se em muitas células, cada uma desenvolvendo-se independentemente . Formam-se diversos embriões a partir de um ovo parasitado.

Predador. Sempre atacam e matam sua presa. È um organismo de vida livre durante todo o ciclo de vida. Usualmente é maior do que a presa e requer mais do que uma para completar o seu desenvolvimento. Ex. leão

Os predadores podem ser classificados em:

•  Monófagos. Comem apenas uma espécie de presa.

•  Estenófagos . Comem um número restrito de espécies.

•  Oligófagos. Comem um número moderado de espécies.

•  Polífagos . Comem um grande número de espécies.

•  Insaciáveis . Matam indiscriminadamente. Ex. Aranhas

Em relação aos hábitos alimentares, durante o seu desenvolvimento, os predadores podem ser:

•  Completos. Possuem hábitos predatórios durante todas as fases de seu desenvolvimento.

•  Incompletos. Possuem hábitos predatórios apenas em uma fase do seu desenvolvimento.

Os entomologistas geralmente usam o termo parasito para designar insetos que parasitam e patógeno para organismos que causam doenças em insetos. Por outro lado, os parasitologistas empregam “parasitos” para qualquer organismo que viva em um hospedeiro, incluindo microorganismso e organismos multicelulares.

Estratégias de liberação

Liberação inoculativa . Liberação de um pequeno número de insetos.É para sistemas abertos com baixa variabiliade temporal. Aplica-se a culturas perenes ou semiperenes e florestas. É, portanto, típica do controle biológico clássico.

Liberação inundativa . É para sistemas com alta variabilidade temporal (culturas anuais).

Liberação inoculativa estacional . É normalmente feita em casas-de-vegetação no período de ocorrência da praga.é uma mistura do método inundativo e inoculativo, pois é liberado uma grande quantidade de insetos para se obter um controle imediata e espera-se o crescimento das populações para controle das gerações tardias.

Formas de exploração do hospedeiro

Coinobiontes . Parasitóides que permitem que o hospedeiro cresça (e continue a se alimentar) em tamanho após o parasitismo.

Idiobiontes . Ecto ou endoparasitóides de ovos e pupas, os quais matam seus hospedeiros antes da emergências e se desenvolvem em hospedeiros mortos ou paralisados. São os parasitóides de ovos, pupas e adultos, alem dos parasitóides larvais que, por meio de “picadas”, paralisam permanentemente a presa.

Arrenotoquia . Ovos não fertilizados produzem machos e os fertilizados, fêmeas.Conseqüentemente, fêmeas virgens podem dar descendentes, mas eles serão todos machos. Espécies que seguem esse modo de reprodução são chamadas biparentais. Em algumas espécies biparentais, a fêmea copuladas pode produzir macho ou fêmeas por meio de um controle externo ou interno de fertilização.

Deuterotoquia . Maneira pela qual fêmeas não copuladas produzem machos e fêmeas. Essas espécies são chamadas uniparentais. Os machos haplóides produzidos não são funcionais (ecológica e biologicamente). As fêmeas produzem em sua progênie de fêmeas uma condição diplóide pro meio de vários mecanismos genéticos.

Telitoquia . As fêmeas virgens produzem somente fêmeas, e os machos são desconhecidos. Em alguns casos, espécies telítocas, sob determinadas condições de temperatura, mudam para deuterotoquia e produzem machos haplóides e fêmeas diplóides.

Pró-ovigenia . Caso em que, quando ocorre a emergência, todos os ovos estão maduros, prontos para serem colocados, sem necessidade de seu desenvolvimento.

Sinovigenia . Caso em que poucos ovos estão maduros quando ocorre a emergência, havendo um amadurecimento gradual. Com isso os adultos necessitam de proteínas em sua dieta. Muitas vezes, essa proteíona é obtida em uma ação predatória, matando o hospedeiro pela introdução do ovipositor para se alimentar da hemolinfa exudada.

Voláteis químicos envolvidos na comunicação interespecifica predador (parasitóide )- presa

Alomônios . Substâncias que favorecem aquele que emite o sinal – por exemplo, venenos e secreções defensivas.

  • Cairomônios . Químicos que favorecem o receptor – ppor exemplo, Trichograma é favorecido pelas substancias químicas prsentes nas escamas das asas de lepidópteros, deixadas por ocasião da postura e que irão atraí-lo.
  • Sinomônios . Voláteis químicos que favorecem tanto o emissor como o receptor, como o caso de plantas que, ao serem atacadas por herbívoros, liberam substâncias que atraem os parasitóides.
  • Apneumônios. Substâncias liberadas por organismos não vivos que atraem parasitóides.

agentes de controle

O controle biológico envolve o reconhecimento de que todas as espécies de plantas e animais têm inimigos naturais atacando seus vários estágios de vida. Dentre tais inimigos naturais existem grupos bastante diversificados, como insetos, vírus, fungos, bactérias, aranhas, peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. A forma mais conhecida de controle biológico é o controle de insetos por outros insetos. Isto acontece o tempo todo nos sistemas agrícolas de forma natural, independentemente da ação do homem: por exemplo, muitos insetos se alimentam naturalmente de outros insetos, ou populações de insetos são às vezes sujeitas a epidemias as que acabam matando. No entanto, em alguns casos, a interferência do homem passa a ser necessária e são introduzidos ou manipulados insetos ou outros organismos para controlar quaisquer outras espécies que prejudicam os cultivos.

Os mais utilizados no controle biológico artificial são fungos , bactérias e vírus, para os quais há inclusive formulações comerciais a venda em lojas de produtos agrícolas (como o Dipel, entre outros). Os animais insetívoros (peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos), por serem inespecíficos, apesar de destruírem um grande número de insetos, não são usados em controle biológico pelo homem. Neste grupo incluem-se, por exemplo, lagartixas, sapos, rãs, tamanduás, tatus, etc.

Entre os agentes de controle microbiano de insetos que estão sendo utilizados no País destacam-se os fungos Metarhizium anisopliae, Beauveria bassiana e Sporothrix insectorum , os agentes de natureza viral Baculovirus anticarsia , Baculovirus erinnys e Baculovirus spodoptera e os produtos à base das bactérioas Bacillus thurigiensis e Bacillus sphaericus .

Vírus

Embora muitas viroses ocorram em insetos, é na família Baculoriridae que se concentram os mais importantes vírus empregados no controle biológico. Esses vírus tem sido usados efetivamente há mais de 50 anos. É nessa família de vírus que estão aqueles que possuem corpos de inclusão visíveis ao microscópio ótico ou aqueles que são observáveis apenas por meio de microscópio eletrônico.

Os vírus contaminam os insetos por via oral sendo ingeridos junto com órgãos e tecidos foliares, principalmente folhas e caules. Os sintomas do contágio são:

•  Paralisação da alimentação;

•  Movimentação lenta do inseto;

•  Perda de coloração do corpo;

•  Perda do brilho natural;

•  Busca pela parte mais alta da planta;

•  Morte de cabeça para baixo, pendurados.

Os vírus podem ser isolados de insetos contaminados. Neste caso, estes indivíduos devem ser macerados em uma solução tampão (para eliminar gorduras e regular o pH) e, em seguida, o material deve ser filtrado e centrifugado.

Vantagens

•  São bastante específicos;

•  Condições de armazenamento não são tão rigorosas;

•  Podem ser usados com risco mínimo de contágio de seres humanos (temperatura ótima de ação difere da temperatura do corpo humano).

Desvantagens

•  Falta de formulações adequadas;

•  Grande custo de produção;

•  Ação lenta;

•  Pequena atividade residual.

Bactérias

Bactérias que produzem esporos e mesmo bactérias não-esporulantes podem causar doenças em insetos. As pertencentes ao gênero Bacillus são as mais importantes para o controle biológico, sendo o Bacillus popillae utilizado desde a década de 30 no controle de coleópteros. Outras espécies do mesmo gênero produzem cristais protéicos que são tóxicos quando ingeridos por insetos. É o caso do B. thuringiensis , mais conhecido como Bt, largamente empregado contra dípteros, ortópteros, himenópteros e principalmente lepidópteros.

As bactérias contaminam os insetos por via oral, multiplicam-se no interior dos mesmos, e no caso de certos Bacillus produzem protoxinas na forma de cristais. Os cristais atacados por proteases liberam toxinas que afetam os insetos com paralisia intestinal e suspensão da alimentação.

Alguns sintomas de contágio são:

•  Paralisação da alimentação;

•  Aumento da cápsula encefálica

Geralmente as bactérias entomopatogenicas podem ser agrupadas em 3 categorias:

•  Obrigatórias . Causam enfermidades especificas para os insetos, não crescem em meio artificial, e atingem um número muito limitado de espécies hospedeiras.

•  Facultativas . Invadem e lesionam tecidos suscetíveis e crescem facilmente em meio artificial. São as mais utilizadas em programas de controle biológico.

•  Potenciais . Multiplicam-se em meio artificial, e não possuem especificidade para o hóspede.

Fungos

Os fungos são os microrganismos mais freqüentemente encontrados atacando insetos. Estima-se que os fungos sejam responsáveis por cerca de 80% das doenças de insetos. São conhecidas atualmente mais de 700 espécies de fungos que atacam insetos.

Assim como os fungos podem eventualmente causar doenças em plantas e mamíferos, também os insetos podem ser atacados por certos fungos . Se usados convenientemente, eles podem ser empregados no controle de insetos-pragas de plantas cultivadas ou mesmo de insetos vetores de doenças.

A principal forma de ação dos fungos é por contato, porém, este ocorre de forma lenta. Os insetos também podem ser contaminados por fungos por via oral, entretanto, este modo de ação não é significativo.

Alguns sintomas de ataque são:

•  Manchas escuras na pernas, segmentos e todo tegumento;

•  Paralisação da alimentação, o inseto tem aspecto débil e desorientado;

•  Aparecimento de coloração branquicenta, devido ao desenvolvimento do micélio, no inicio da contaminação;

•  Após o desenvolvimento da contaminação o corpo do inseto contaminado adquire a coloração característica do fungo que o atacou;

•  Em alguns casos os insetos que estão para morrer buscam a parte alta da planta.

Os fungos também podem ser isolados de insetos contaminados, com a utilização de técnicas microbiológicas utilizados no isolamento de fungos e outros microrganismos.

Desvantagens

•  Não são específicos.

•  Problemas de armazenamento (temperatura e umidade).

Protozoários

Apesar da grande importância dos protozoários como controladores de algumas populações de insetos, este grupo de patógenos não tem desenvolvimento satisfatório como inseticida microbiano.

Nematóides

Já os nematóides, como agentes de controle biológico apresentam a vantagem de serem mais eficientes, principalmente em nível de espécie. Esta vantagem esta associada com a habilidade de busca do hóspede e a segurança que representam para os mamíferos.

Vantagens

•  Resistem a um grande número de defensivos agrícolas;

•  Efeito sinergistico como outros patógenos (ex. Bt);

•  Boa capacidade de adaptação a novos ambientes;

•  Não causam danos às plantas cultivadas por serem específicos aos insetos;

•  Muitas vezes se reproduzem sem a presença dos machos (partenogênese);

•  Não são nocivos aos animais domésticos.

Desvantagens

•  Dificuldade de obtenção e realização de grandes criações em meio artificial a um custo economicamente viável;

•  Dependência de fatores ambientais em sua aplicação;

•  Dificuldades de armazenamento por grandes períodos;

•  Dificuldades para obtenção de embalagens adequadas para o envio das doses produzidas;

•  Existência de mecanismos de defesa em alguns insetos.

Exemplos de sucesso

O primeiro relato de controle natural no Brasil foi feito em 1924, quando apareceu a chamada broca do café nas lavouras paulistas. O Instituto Biológico identificou a praga e trouxe o primeiro método de controle biológico para o Brasil

Vários exemplos de programas bem sucedidos se seguiram (Tabela 1). Um de deles é o caso do vírus que ataca a lagarta da soja, desenvolvido pela Embrapa a partir de 1978. Este trabalho mostrou aos agricultores que um determinado tipo de vírus que ataca lagartas em plantações de soja podia controlar grandes populações da praga sem efeitos negativos ao ambiente. Hoje, esse vírus é utilizado em mais de um milhão de hectares, com economia anual de 1,2 milhão de litros de inseticidas químicos, no que é o maior programa mundial em área tratada com um único agente de controle biológico.

O caso da cigarrinha da cana-de açúcar

Bons resultados têm sido obtidos com o controle de cigarrinha da cana-de-açúcar com o fungo Metharizium anisopliae , em especial no nordeste do Brasil, onde o inseto ataca as folhas. Com a mudança radical na cultura por meio da eliminação de queimada da cana e da adoção do corte mecanizado ocorre o aumento significativo da matéria orgânica depositada no solo, influenciando diretamente a ocorrência de pragas e doenças, tais como: Migdolus spp ., cupins, formigas cortadeiras, cigarrinhas, fungos, bactérias, nematóides e plantas daninhas infestantes. O ataque das ninfas e adultos da cigarrinha provoca danos visíveis à lavoura, com colmos de cana mais finos e até mortos, causando redução de até 60% de peso e, principalmente, do teor de sacarose, devido à contaminação por toxinas e microrganismos, provocando perdas na produção de açúcar e de álcool. O trabalho desenvolvido pelo Instituto Biológico permitiu a utilização de novas cepas do fungo, mais efetivas no controle do inseto e hoje é difundida para produtores, empresas interessadas na produção de formulações comerciais.

O Instituto Biológico tem transferido, com apoio da FundAg, a tecnologia de multiplicação do fungo Metarhizum, utilizado no controle da cigarrinha em cana-de-açúcar, para o setor privado, viabilizando o estabelecimento de novos laboratórios de produção do fungo, além de acompanhar e monitorar a qualidade do produto final. Em, pelo menos, 160 mil hectares de cana-de-açúcar do Estado de São Paulo, já está sendo utilizado o controle de cigarrinhas, representando economia e redução de aplicação de defensivos químicos. A implantação do projeto reduziu em 3.238 toneladas o uso de produtos químicos no período de 2002/2003. A queda nos custos também foi bastante sensível: o custo médio de tratamento utilizando defensivos químicos é de R$160,00/ha. O gasto com controle biológico cai para, apenas, R$40,00/ha, em média. Redução de R$ 120,00/ha.

O caso da vespa da madeira

A vespa-da-madeira foi localizada em 1988 no Rio Grande do Sul e logo chegou a Santa Catarina e Paraná, atingindo cerca de 250 mil hectares. Altamente nociva, por danificar e matar árvores colocou em risco os quase dois milhões de hectares de Pinus existentes no Brasil. Os pesquisadores da Embrapa estão utilizando, para controle, um sistema que inclui principalmente um nematóide e mais três vespas parasitóides, reduzindo 70% da população da praga. Com isso, o país obtém uma economia anual de 6,6 milhões de dólares. Esta tecnologia ganhou, em 2001, o Prêmio Finep de Inovação Tecnológica - Região Sul.

São utilizadas diversas técnicas, integrando o monitoramento constante nas áreas de cultivo, com vista a detectar precocemente a vespa e eliminar as árvores infestadas, o uso do nematóide entopatogênico da família Neothlenchidade, Delamus siricidicola, e a liberação das vespas parasitóides.

O nematóide ocorre na natureza, infestando as larvas da vespa e causando infertilidade. Sua aplicação é feita após a detecção da vespa na área, usando-se árvores-armadilha. Estas são árvores estressadas pelas retirada da casca e pela aplicação de herbicidas no corte, que assim tornam-se atrativas para a vespa. Dentro da árvore, os nematóides movimentam-se pela madeira até encontrarem as larvas do inseto, infectando-as.

O caso das formigas

De forma geral, as pessoas acreditam que todas as formigas são pragas, lembrando principalmente das formigas cortadeiras (saúvas e quenquéns). Ou senão, fazem referência às formigas que vivem nas casas. No entanto, salvo dois ou três casos particulares, nem 5% das espécies de formigas são prejudiciais ao ser humano ou à sua agricultura. Excluindo as espécies cortadeiras, a "pixixica" e a "formiga de enxerto" nos cacauais da Bahia, as formigas em geral têm papel benéfico nos agroecossistemas. Por serem predadoras generalistas, ou seja, se alimentarem de diversos outros organismos, as formigas constituem uma fonte permanente de controle de outros insetos. Um dos motivos é que nos sistemas agrícolas tropicais existe um grande número de formigas de muitas espécies diferentes.

Diversas espécies de formigas receberam atenção especial dos pesquisadores e da população em geral por seu papel no controle biológico de insetos que danificam plantas cultivadas no sudeste da Bahia, no cacaueiro em particular. A caçarema, por exemplo, é um excelente predador de tripes e de percevejos do cacaueiro, enquanto a formiga Ectatomma tuberculatum ataca vaquinhas, formigas cortadeiras e lagartas. A grande vantagem das formigas é que elas caçam em permanência na vegetação e não precisam de "reaplicação". De forma tradicional, numerosos fazendeiros espalham as "caçaremas" nas suas plantações há décadas, apesar de campanhas de erradicação intensivas organizadas contra esta espécie entre os anos 1950 e 1970, na época onde se considerava que "um inseto bom é um inseto morto".

Além destes, os percevejos-da-soja, a lagarta do cartucho-do-milho, a cigarrinha-das-pastagens, a vespa-da-madeira, a mosca-de-renda da seringueira e o pulgão-do-trigo são algumas das dezenas de pragas no Brasil que podem ser controladas sem uso de produtos químicos .

A seguir é apresentada uma tabela com alguns agentes de controle biológico que vem sendo utilizados no Brasil com sucesso e a forma de aplicação:

Agente Biológico

O que ele ataca

Como se aplica

Fungo Metarhizium anisopliae

Cigarrinha da folha da cana-de-açúcar

O fungo é pulverizado e, em contato com o corpo do inseto, causa doença.

Fungo Metarhizium anisopliae

Broca dos citrus

O fungo é polvilhado nos buracos da planta contaminando a praga.

Fungo Beauveria bassiana

Besouro "moleque-da-bananeira"

O fungo é aplicado em forma de pasta em pedaços de bananeira que são colocados ao redor das árvores servindo de isca.

Fungo Insectonrum sporothrix

Percevejo "mosca-de-renda"

O fungo é pulverizado e, em contato com o corpo do inseto, causa doença.

Vírus Baculovírus anticarsia

Lagarta da soja

Pulverizado sobre a planta o vírus adoece a lagarta que se alimenta das folhas.

Vírus Baculovírus spodoptera

Lagarta do cartucho do milho

Pulverizado sobre a planta, o vírus adoece a lagarta que se alimenta da espiga em formação.

Vírus Granulose

Mandorová da mandioca

Pulverizado sobre a mandioca o víris é nocivo à praga.

Nematóide Deladendus siridicola

Vespa-da-madeira

Em forma de gelatina, o produto é injetado no tronco da árvore esterelizando a vespa.

Bactéria Bacillus thuringiensis (Dipel)

Lagartas desfolhadoras

Pulverizado sobre a planta o Dipel é nocivo às lagartas.

Tabela 1: Exemplos de agentes de controle biológico utilizados no Brasil

O mercado

O interesse pelos programas de controle biológico de pragas tem crescido consideravelmente no mundo em função do novo direcionamento internacional da produção agrícola de favorecer a conservação e o uso sustentável dos recursos biológicos, requisitos básicos da Convenção da Biodiversidade. Políticas internacionais demandam fortemente alternativas para os agrotóxicos, e a utilização de inimigos naturais de pragas é uma alternativa promissora. Em um país como o Brasil, que despeja, por ano, cerca de 260 mil toneladas de agroquímicos nas lavouras e onde o consumo de praguicidas cresceu 60% nos últimos quinze anos o controle biológico parece ser uma alternativa não apenas ecologicamente correta, mas também economicamente justificável. Em 2002, a venda de agrotóxicos atingiu US$ 2,5 bilhões por ano.

Atualmente, existem disponíveis no mercado cerca de 200 produtos de controladores biológicos registrados, os chamados bioinseticidas, com faturamento anual de 300 milhões de colares, o que corresponde apenas a 1% do faturamento conseguido pelos compostos químicos empregados com a mesma finalidade.

Do ponto de vista do mercado consumidor é importante notar que os consumidores estão cada vez mais exigentes e preferindo alimentos cuja produção não agrida o meio ambiente. Uma pesquisa do IBOPE, realizada em 2001, revelou que para 73% da população a decisão de compra e consumo sofre influência positiva com a informação de que o alimento foi produzido sem insumos químicos .

Para os produtores ainda há a vantagem no preço: os produtos orgânicos obtêm preços médios de 30% a 40% acima do valor do produto convencional e está conquistando o mundo. Na Europa, a agricultura orgânica cresce 25% ao ano, e na Áustria a produção agrícola orgânica atinge 40% da produção total. No Brasil, décimo produtor mundial, o crescimento anual está numa média de 10%, e no ano passado movimentou cerca de 150 milhões de dólares, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura (FAO). No mundo, o movimento chega a US$ 24 bilhões, de acordo com pesquisa da Fundação Getúlio Vargas.

Considerando as vantagens da produção com custos mais baixos, da diminuição dos impactos ambientais, do aumento da segurança alimentar e da menor exposição dos trabalhadores rurais a substâncias tóxicas, o controle biológico de doenças, insetos e plantas daninhas se torna, cada vez mais, uma prática comum em nosso meio rural, tornando a agricultura e os alimentos mais saudáveis. É possível reduzir em até 60% a aplicação de agrotóxicos realizando-se o manejo ecológico adequado. Práticas como as do controle biológico, além de ser ecologicamente recomendáveis e moralmente satisfatórias, diminuem o custo de produção ao agricultor e permite uma produção desprovida de agentes químicos, tão valorizada hoje em dia no mercado internacional.

O Brasil é um dos poucos países do mundo detentores da chamada megadiversidade biológica, ou seja, de ecossistemas importantes ainda íntegros.

Essa biodiversidade pode oferecer uma oportunidade ímpar para o controle biológico de pragas no país, como também, em outros países do mundo, com a identificação de novos organismos vivos com potencial de serem utilizados no controlebiológico.

Os inimigos naturais são de grande importância para agricultura sustentável, e podem, freqüentemente, substituir ou reduzir a necessidade de utilização dos agrotóxicos, sendo um importante componente no manejo ecológico de pragas. A tendência do uso do controle biológico de pragas é aumentar consideravelmente no âmbito global, atendendo às demandas internacionais na utilização de práticas agrícolas menos agressivas ao meio ambiente.

Referências bibliográficas

www.cenargen.embrapa.br/conbio/conbio.html

www.planetaorganico.com.br/controle.htm

Jornal "A Folha de São Paulo", caderno "Agrofolha", 1998.

Livro: “Controle Biológico” – Editores Itamar Soares de Melo e João Lúcio de Azevedo.

Notas de aula: Disciplina de Controle Biológico, Profº Nilton José Sousa – UFPR, Mestrado em Engenharia Florestal

Livro: Cap.1: Controle Biológico – Terminologia – José Roberto Parra, Paulo Sérgio Botelho e outros.