Incêndios Florestais

O Fogo

Fogo, de um modo geral, é o termo aplicado ao fenômeno físico resultante da rápida combinação entre o oxigênio e uma substância qualquer (madeira por exemplo), com produção de calor, luz e, geralmente, chamas. Fogo, ou mais precisamente combustão, é portanto uma reação química de oxidação.

A reação da combustão completa da madeira, que poderia ser generalizada para todo o material combustível da floresta, envolve três elementos básicos: combustível, oxigênio e calor.

Em qualquer incêndio florestal é necessário haver combustível para queimar, oxigênio para manter as chamas e calor para iniciar e continuar o processo de queima. Essa inter-relação entre os três elementos básicos da combustão é conhecida como “triângulo do fogo“. A ausência, ou redução abaixo de certos níveis, de qualquer um dos componentes do triângulo do fogo inviabiliza o processo da combustão.

Comportamento do Fogo

Taxa de Propagação do Fogo

Taxa de propagação é o termo usado para descrever a taxa segundo a qual o fogo aumenta, tanto em área quanto linearmente. Em estudos de comportamento do fogo, um dos mais importantes parâmetros é a taxa de propagação linear do fogo, ou velocidade de propagação, que pode ser medida em metros por segundo, metros por minuto ou quilômetros por hora.
Existem modelos matemáticos, bastante complexos, para se estimar a velocidade de propagação de um incêndio. O modelo proposto por ROTHERMEL, por exemplo, se baseia na teoria de conservação de energia.

Em termos práticos, a velocidade de propagação do fogo pode também ser medida diretamente em qualquer incêndio. Basta ter um cronômetro e marcar no terreno distâncias pré-estabelecidas. Cronometrando-se o tempo que o fogo leva para percorrer essas distâncias, estima-se facilmente a velocidade de propagação em qualquer unidade desejada. Apesar de ser um dos parâmetros mais fáceis de se medir em um incêndio, a velocidade de propagação é muito importante na previsão do comportamento do fogo.

Embora seja muito variável de incêndio para incêndio, por depender de muitos fatores, resultados de velocidade de propagação do fogo têm sido publicados por diversos autores em diferentes condições de queima. Esses resultados dão uma idéia dos limites de velocidade que se pode esperar do fogo, tanto em queimas controladas como em incêndios florestais.

Intensidade do Fogo

Um dos mais importantes parâmetros do comportamento do fogo é a intensidade do fogo. BYRAM (1959) definiu este termo como “a taxa de energia ou calor liberado por unidade de tempo e por unidade de comprimento da frente de fogo”. Numericamente, é igual ao produto da quantidade de combustível disponível pelo seu calor de combustão e pela velocidade de propagação do fogo, como mostra a equação de Byram:

formula0

Onde:

I = intensidade do fogo nos incêndios florestais (4 a 25.000 Kcal/m.s)
H = calor específico do material combustível na floresta (3.600 a 5.000 Kcal/kg)
w = peso do material combustível (kg/m^2)
r = taxa de propagação do incêndio (m/s)

A intensidade do fogo pode também ser estimada através de sua relação com o comprimento médio das chamas. A equação que traduz essa relação é a seguinte:

formula1

Sendo:

I = intensidade do fogo em kcal/m.s.
hc = comprimento das chamas em m

Altura de Crestamento

A temperatura alcançada, a determinada altura, pela coluna de convecção acima do fogo, depende de três fatores: a intensidade do fogo, a temperatura do ar e a velocidade do vento. A determinada intensidade do fogo, ventos fortes tendem a dissipar a coluna de convecção horizontalmente, reduzindo a altura de crestamento letal. A temperatura do ar também é importante porque o acréscimo de calor necessário para matar a folhagem depende naturalmente da temperatura inicial.

VAN WAGNER descobriu que a altura de crestamento letal em copas de coníferas varia com a potência de 2/3 da intensidade do fogo, ou seja:

formula2

Incluindo os efeitos da velocidade do vento e da temperatura ele desenvolveu a seguinte equação, para calcular a altura de crestamento letal para povoamentos de Pinus ponderosa:

formula3

Sendo:

hs = altura de crestamento letal em metros;
I = intensidade do fogo em kcal/m.s;
V = velocidade do vento em m/s;
T = temperatura do ar em °C;

De acordo com a estrutura da equação, a altura de crestamento é proporcional à intensidade do fogo e à temperatura do ar e inversamente proporcional a velocidade do vento.

Tempo de residência

O tempo de residência, ou o intervalo de tempo em que a frente de fogo permanece num determinado ponto, é também um importante componente do comportamento do fogo. Essa importância se deve ao fato de que os danos causados à vegetação dependem não apenas da temperatura do fogo mas também do tempo de exposição da vegetação a essa temperatura.
O tempo de residência pode ser calculado através da velocidade de propagação do fogo e a profundidade (ou largura) da chama. Profundidade da chama é a distância horizontal entre as duas extremidades da chama. A relação é a seguinte:

formula4

Sendo:

tr = tempo de residência em segundos;
P = profundidade da chama em metros;
r = velocidade de propagação do fogo em m/s.

Temperatura Letal

Chama-se de Temperatura Letal para os tecidos das árvores aquela que provoca a sua morte. Ela é inversamente proporcional ao tempo de exposição àquela temperatura. Por outro lado, aquantidade de calor que chega ao câmbio é inversamente proporcional à espessura da casca e diretamente proporcional ao conteúdo de umidade da casca. De um modo geral, sabe-se que temperaturas de 60oC provocam a morte do câmbio em 2 a 4 min; a 65oC, a morte se dá em menos de 2 minutos.

Nelson, observando Pinus, nos Estados Unidos, constatou a morte das acículas em 6 min, com temperatura de 54°C; em 30 segundos a 60ºC; e instantaneamente, a 64ºC.

A Temperatura Letal pode ser estimada pela seguinte expressão:

T = a - b . ln(t)

Onde:

T = temperatura letal (ºC)
a e b = constantes
ln = logarítimo natural
t = tempo de exposição(min)

Efeitos do Fogo

Os incêndios florestais podem causar diversos tipos de danos às florestas, dependendo das condições existentes, principalmente tipo de floresta, combustível e clima:

Danos às árvores – São os danos mais visíveis e que mais chamam a atenção após a ocorrência de um incêndio. Variam bastante, dependendo da intensidade e tempo de duração do fogo, da espécie florestal e da idade da árvore. Árvores jovens são muito mais sensíveis ao fogo que as adultas, da mesma maneira que as folhosas resistem menos ao fogo que as coníferas. A morte das árvores geralmente é provocada pelo aquecimento do câmbio acima da temperatura letal e por este motivo árvores mais velhas, por possuírem casca mais espessa, dando maior proteção ao câmbio são mais resistentes. Da mesma forma as coníferas, que geralmente possuem casca mais espessa, são mais resistentes do que as folhosas. A destruição total das árvores pelo fogo não é muito frequente, a não ser em incêndios de extrema intensidade. Geralmente as árvores de médio e grande porte ainda podem ser parcial ou totalmente aproveitadas após um incêndio.

Danos ao solo – incêndios de grande intensidade, ou mesmo de média intensidade mas repetindo-se periodicamente em um mesmo local, podem provocar sérios danos ao solo. A destruição da camada orgânica expõe o solo às intempéries, provocando modificações nas suas propriedades físicas, principalmente porosidade e penetrabilidade de água. Solos argilosos tornam-se duros, dificultando a penetração da água. Solos arenosos tornam-se friáveis, perdendo o poder de retenção de água. Em ambos os casos há um favorecimento à erosão dos solos.

Danos ao caráter protetor da floresta – a floresta se constitui num importante agente protetor do ambiente, exercendo influência contra deslizamentos, avalanches, inundações, erosão e invasão de dunas. É notória também a ação da floresta como reguladora do regime hidrológico. O solo florestal, protegido pelas copas das árvores contra o impacto direto da chuva, coberto de húmus e serapilheira, funciona como uma esponja natural, porosa, absorvendo e facilitando a infiltração da água da chuva. O fogo intenso, principalmente quando destrói a copa das árvores e expõe o solo mineral através da queima da serapilheira e do húmus, modifica toda a situação, expondo a área a vários distúrbios ambientais.

Redução da resistência das árvores – O fogo, acima de certa intensidade, mesmo quando não causa a morte das árvores, pode debilitá-las sensivelmente. Cicatrizes deixadas pelo fogo favorecem o ataque de insetos e fungos, os quais, se instalarão e reproduzirão, causando grandes danos à madeira remanescente ao incêndio. Por esta razão, sempre que ocorrer um incêndio de grandes proporções, deve-se ficar atento a fim de se evitar surtos de pragas e doenças.

Danos à fauna – Os incêndios florestais podem causar danos diretos ou indiretos aos animais que vivem na floresta. Diretos, através da morte dos animais que não conseguem escapar do fogo. Indiretos, Pelas modificações provocadas ao habitat dos animais principalmente ao que se refere à alimentação e abrigo. A intensidade e o tipo de danos dependem das características e épocas dos incêndios. Apesar dos animais terem grande capacidade de pressentirem o fogo e fugirem, grandes incêndios podem encurralá-los e causar mortalidade. O incêndio da quarta feira de cinzas de 1983 na Austrália, por exemplo, matou cerca de 300.000 ovelhas. Incêndios na primavera são particularmente daninhos devido a destruição de ninhos e animais jovens, ainda sem grande capacidade de fuga.

Danos ao aspecto recreativo da floresta – Em muitos países do mundo, inclusive o Brasil, as florestas são utilizadas como local de recreação, onde populações urbanas vão passar fins de semana, fugindo da vida agitada das cidades. As florestas usadas para esta finalidade, geralmente parques nacionais, estaduais ou municipais, apresentam sempre um agradável aspecto paisagístico. Um incêndio florestal fatalmente alteraria esse aspecto agradável, tornando florestas, pelo menos temporariamente, imprópria às atividades recreativas.

Danos ao planejamento florestal – O fogo interfere tanto na qualidade quanto na quantidade da produção madeireira das florestas. A capacidade produtiva da floresta pode ser afetada de três maneiras. Em primeiro lugar, um incêndio de grande intensidade pode mudar totalmente o tipo de vegetação, muitas vezes favorecendo a regeneração de espécies pioneiras de menor valor econômico. Em segundo lugar, o fogo pode reduzir a densidade da floresta, diminuindo sua capacidade produtiva. Finalmente, o fogo altera o “princípio da persistência”, isto é, o rendimento sustentado da floresta, por forçar o corte prematuro de árvores danificadas. Em caso de possuir seguro contra incêndio uma empresa pode se ressarcir dos prejuízos monetários correspondentes ao valor da madeira perdida, mas os danos ao planejamento florestal são irreparáveis.

Danos a propriedades – Além dos danos à vegetação, os incêndios podem danificar outras propriedades tais como casas, outras construções, veículos e equipamentos diversos. Vários exemplos testemunham a força destruidora dos incêndios florestais. O incêndio de Maine, E.U.A., em 1947, destruiu 800 residências. Em 1963, no Paraná, o fogo destruiu cerca de 8.000 imóveis, entre casas, galpões e silos, deixando aproximadamente 5.700 famílias de trabalhadores rurais desabrigados. Esse mesmo incêndio queimou tratores, equipamentos e diversos veículos. Na Austrália em 1983, cerca de 5.000 casas foram destruídas por um único incêndio florestal. Em Oakland, Califórnia, E.U.A., um incêndio em 1971 destruiu cerca de 5.700 casas e centenas de veículos.

Danos à vida humana – incêndios de grande intensidade além de destruírem florestas e outros bens materiais algumas vezes provocam ferimentos e até mesmo mortes de pessoas envolvidas ou não no combate. Na Austrália, por exemplo, em 1932 um incêndio florestal matou 71 pessoas, tragédia que se repetiu em 1983, quando 75 pessoas foram mortas por um incêndio que atingiu cerca de 400.000 ha. No Canadá, entre 1969 e 1978 os incêndios florestais mataram 13 pessoas. Os incêndios de Oakland, em 1991, e do Colorado, em 1994, ambos nos Estados Unidos, mataram 25 e 14 pessoas, respectivamente. No Brasil, o incêndio do Paraná, em 1963, provocou 110 mortes, o incêndio do Parque do Rio Doce, em Minas Gerais, em 1967 matou 12 pessoas, e em 1988, incêndios em quatro estados (Minas Gerais, São Paulo, Paraná e mato Grosso do Sul) mataram 8 pessoas. Mas a maior catástrofe provocada por um incêndio florestal foi em Wisconsin, E.U.A., em 1871, quando 1.500 pessoas foram mortas pelo fogo.

Fogo Controlado

O fogo controlado pode ser uma ferramenta útil para se alcançar várias metas no manejo florestal, inclusive (paradoxalmente) no próprio combate ao incêndio. Assim, o fogo é um agente natural: na redução do material combustível; na raleação e; na sucessão vegetal.

O fogo é o mais prático e econômico de todos os meios conhecidos de preparo do terreno para plantio, embora só deva ser utilizado com técnica e sob determinadas condições de clima e solo.

Em plantações de eucaliptos, após as árvores atingirem certo porte, o fogo pode ser usado para evitar a competição de espécies vegetais indesejáveis no sub-bosque, pois a maioria das espécies de Eucalyptus são resistentes ao fogo.

As Leguminosas, um dos mais importantes gêneros vegetais, são de um modo geral, 5 vêzes mais abundantes após o fogo, do que antes.

Na Agricultura, o fogo é frequentemente utilizado: para controlar certas pragas, destruir sementes de ervas daninhas, eliminar doenças de plantas, na colheita da cana-de-açúcar e para eliminar resíduos de colheitas.

Causas de Incêndios Florestais

Antrópicas

São aquelas causadas pela ação do homem, como: fogueiras de festas juninas, de pescadores, de aquecimento de comida as margens das rodovias, limpeza de rodovia com queima da vegetação retirada, fósforos acessos jogados dos veículos, cigarros, limpeza de pastos, limpeza de área de mato para agricultura, piromaníacos, atentados de movimentos radicais, etc.

Naturais

Causadas por fenômenos naturais, como raios e vulcões.

Medidas Preventivas

A prevenção de incêndio de causa humana, que pode ser alcançada através da educação da população, da regulamentação do uso da floresta e da aplicação da legislação pertinente, ainda apresenta um grande potencial para aperfeiçoamento. Várias medidas podem ser adotadas, no sentido de prevenir os incêndios, dentre elas:

  • Conhecimento sobre umidade do ar, e se precaver nos períodos de temperaturas altas, aumentar a vigilância, iniciar as prevenções e estar preparado para combate.
  • Nas áreas de maior circulação, o risco sempre é maior, manter sempre limpas, evitando a presença de combustíveis.
  • Quando for necessário a queima, ter sua autorização da autoridade competente, e cumprir todas as regras da autorização.
  • Exija periódicas revisões nas instalações elétricas, externas e internas, evitando curtos circuitos e lançamentos de chispas.
  • Se área de turismo, colocar cartazes lembrando do perigo de fogueiras mal ou não apagadas, cigarros etc.
  • Manter sempre em lugar seguro e longe das residências, lenha, combustíveis, óleos, gás etc.
  • Cuidados com usos de velas ou candeeiros, certifique-se de ter apagado antes de dormir. Evite deixar nos quartos de crianças.
  • Não salte balões em festas juninas, ou mesmo brinque com pólvora. A beleza pode se transformar em desgraça. Saiba utilizar nas áreas corretas.
  • Estabeleça com seus vizinhos uma rota de saída de emergência, no caso de incêndio florestal.
  • Convença também seus vizinhos a fazerem o curso de prevenção e combate de incêndios florestais.
  • Divida as tarefas, no caso de incêndio, alguém deverá cuidar dos idosos e doentes.
  • Tenha sempre a mão os equipamentos necessários, como materiais de combate, lanterna com pilhas em bom estado, primeiros socorros, etc.
  • Guarde em lugar de fácil acesso todas as ferramentas de combate aos incêndios florestais, limpas e revisadas.