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Comportamento
do Fogo
1. Introdução
Segundo SOARES (1979), existe uma relação entre o fogo
e a silvicultura que é de vital importância para o Engenheiro
Florestal. A silvicultura comercial está diretamente dirigida
à produção de fibra de madeira e à criação
e manutenção de uma cobertura verde. Basicamente, a silvicultura
consiste em manejar a força criativa da fotossíntese,
processo químico do qual toda a vida depende e através
do qual o dióxido de carbono, água e energia solar são
combinados para produzir a celulose e outros carbohidratos, em um processo
lento e contínuo. O fogo, por sua vez, rapidamente reverte o
processo e libera, sob forma de calor, a energia armazenada pela fotossíntese.
O fogo é portanto o inverso da fotossíntese, ou seja,
é um processo de decomposição.
Analisado desta forma o fogo pode ser considerado como um inimigo potencial
das florestas, principalmente das florestal plantadas, e realmente é
extremamente destrutivo quando foge do nosso controle. Porém
quando usado de forma controlada é de grande utilidade para a
atividade florestal, tanto na limpeza das áreas como na redução
de material combustível no interior das florestas. Sendo válido
lembrar, que para este fim ainda existem grandes controvérsias
sobre os possíveis danos que o fogo pode causar às árvores
do povoamento.
Neste sentido o estudo do comportamento do fogo e imprescindível
para a avaliação dos efeitos da queima controlada sobre
as árvores. Sendo assim o presente trabalho tem como objetivo
principal, apresentar de maneira sucinta algumas considerações
sobre combustão e propagação do fogo e alguns parâmetros
sobre o comportamento do fogo.
2.
Considerações gerais sobre combustão e propagação
do fogo
Segundo
SOARES (1985), os conceitos gerais sobre combustão e propagação
dos fogo são os seguintes:
Fogo, de um modo geral, é o termo aplicado ao fenômeno
físico resultante da rápida combinação entre
o oxigênio e uma substância qualquer (ex. - madeira), com
a produção de calor, luz e, geralmente, chamas. fogo ou
mais precisamente combustão, é portanto uma reação
química de oxidação.
Analisando-se a reação da combustão completa da
madeira, que poderia ser generalizada para todo o material combustível
florestal, percebe-se que ela envolve três elementos básicos:
combustível, oxigênio e calor. Em qualquer incêndio
florestal é necessário haver combustível para queimar,
oxigênio para manter as chamas e calor para iniciar e continuar
o processo de queima. Essa inter-relação entre os três
elementos básicos da combustão é conhecida como
“Triângulo do Fogo”. A ausência, ou redução
abaixo de certos níveis, de qualquer um dos componentes do triângulo
do fogo inviabiliza o processo de combustão.
Um incêndio florestal superficial sempre começa através
de um pequeno foco (fósforo aceso, toco de cigarro, fagulha,
pequena fogueira, etc.), e inicialmente tende a se propagar para todos
os lados, de forma aproximadamente circular, tendo em um segundo estágio
sua forma alterada pela ação do vento e da topografia.
Daí em diante o incêndio toma uma forma definida, compreendendo
as seguintes partes: cabeça ou frente, flancos e cauda ou base.
A cabeça ou frente é a parte que avança mais rapidamente
e segue a direção do vento; a cauda ou base se propaga
em direção oposta à cabeça, contra o vento,
lentamente, é as vezes se extingue; os flancos se propagam perpendicularmente
à cabeça do incêndio ligando está à
cauda.
Vários fatores afetam e influem na propagação dos
incêndios, entre eles: o material combustível; a umidade
do material combustível; as condições climáticas;
a topografia e o tipo da floresta. A ação de cada um destes
fatores é diferente para cada região e para cada época
do ano, o que causa grande diferença no comportamento dos incêndios.
3.
Considerações gerais sobre o comportamento do fogo
Segundo SOARES (1979), Comportamento do fogo, é um termo geral
usado para designar o que o fogo faz. A ignição, crescimento,
propagação e declínio de qualquer incêndio
em combustíveis florestais representa um complexo processo de
reação em cadeia. A ação do fogo através
de sua duração é governada por certas leis e princípios
naturais da combustão. A compreensão desses princípios
é um passo básico no julgamento do efeito dos vários
fatores ambientais sobre o comportamento do fogo. O triângulo
do fogo e as fases de combustão, por exemplo, são peças
importantes no estudo do comportamento do fogo.
Segundo BATISTA (1995), comportamento do fogo é o resultado da
interação entre clima e condições do combustível,
topografia, técnica de queima e forma de ignição.
Medidas do comportamento do fogo são úteis para comparar
queimas, para o planejamento da supressão e para estimar os efeitos
do fogo. Além disso, os termos de comportamento do fogo tem sido
usados por inúmeros autores para descrever as condições
das queimas controladas em povoamentos florestais.
3.1 Dimensões da chama
Segundo BATISTA (1990), A dimensão vertical das chamas produzidas
durante os incêndios florestais é utilizada para estimar
a intensidade do fogo. Existe uma certa dificuldade em identificar estas
dimensões, as principais dimensões obtidas são:
a) comprimento da chama, que é a distância entre a ponta
da chama e o solo ou superfície do combustível restante,
medida no meio da sua zona ativa;
b) altura da chama, é a distância entre a ponta da chama
é a superfície do solo ou do material que está
queimando, medida verticalmente em relação ao solo;
c) Profundidade da chama é a distância, na base da chama,
entre a margem dianteira e a margem posterior.
A obtenção destas medidas no entanto, não é
tão simples. A ponta da chama é uma referência muito
instável, sendo portanto necessário obter uma média
de várias observações durante um determinado período
de tempo, para ser representativa do comportamento do fogo.
3.2 Intensidade do fogo
Intensidade do fogo é a taxa de energia ou calor liberada por
unidade de tempo e por unidade de comprimento da frente de fogo. Numericamente
é igual ao produto da quantidade de combustível disponível
pelo seu calor de combustão e pela velocidade de propagação
do fogo, como mostra a equação de Byram:
sendo,
I
= intensidade do fogo em kcal / m.s
H = calor de combustão em kcal / Kg (± 4.000 kcal / Kg)
w = peso do combustível disponível em Kg/m2
r = velocidade de propagação do fogo em m/s
A intensidade do fogo pode também ser estimada através
de sua relação com o comprimento médio das chamas.
A equação que traduz essa relação é
a seguinte:
I = 63,05 . hc2,17
sendo,
I
= intensidade do fogo em kcal/m.s
hc = comprimento das chamas em m
O comprimento das chamas pode ser estimado no próprio incêndio
ou através de fotografias, desde que se tenha alguma referência
no local para servir de escala. Existe também certa dificuldade
em identificar a dimensão que representa o comprimento da chama.
Por definição, comprimento da chama é a distância
entre a ponta da chama e a superfície do solo, medida no meio
de sua zona ativa. Mais fácil é a estimativa da altura
das chamas, o que inclusive pode ser feito através da carbonização
na casca das árvores. Quando a inclinação das chamas
é 45o ou mais, o comprimento é praticamente igual à
altura. Entretanto, se a inclinação for menor que 45o,
a altura será sempre menor que o comprimento. Portanto, quando
se usa a altura das chamas, ao invés do comprimento, para estimar
a intensidade do fogo, quanto maior for o ângulo de inclinação
da chama em relação ao solo, menor será o erro
da estimativa.
A intensidade do fogo, calculada através das equações
de Byram, tem demonstrado ser um parâmetro muito útil na
descrição do comportamento do fogo, além de servir
como um índice de referência para se visualizar e comparar
as taxas de energia liberadas por diferentes incêndios.
Devido ao fato do combustível requerer certo tempo para queimar,
a liberação de calor não está limitada à
parte mais avançada da frente de fogo, mas se estende retroativamente
através de toda a zona onde a combustão está se
processando.
A intensidade do fogo tem mais significado e pode ser melhor compreendida
quando associada à características específicas
do comportamento do fogo.
3.3 Velocidade de propagação
É
o termo usado para descrever a taxa segundo a qual o fogo aumenta, tanto
em área como lineamento. Em estudos de comportamento do fogo,
um dos mais importantes parâmetros é a taxa de propagação
linear do fogo, ou velocidade de propagação, que pode
ser medida em metros por segundo, metros por minuto ou quilômetros
por hora.
Para isto podem ser utilizados modelos matemáticos, que estimam
a velocidade de propagação de incêndios. Outra forma
de forma de medir a propagação do fogo pode ser também
a medida direta, através da cronometragem de uma distância
pré-estabelecida e percorrida pelo fogo. Apesar de não
ser um dos parâmetros mais fáceis de se medir em um incêndio,
a velocidade de propagação é muito importante na
previsão do comportamento do fogo.
3.4
Tempo de residência
O tempo de residência, ou o intervalo de tempo em que a frente
de fogo permanece num determinado ponto, é também um importante
componente do comportamento do fogo. Essa importância se deve
ao fato de que os danos causados à vegetação dependem
não apenas da temperatura do fogo mas também ao tempo
de exposição da vegetação a essa temperatura.
O tempo de residência pode ser medido diretamente ou estimado
através de outros parâmetros. Acompanhando a variação
da temperatura com pares térmicos colocados na superfície
do solo, pode-se determinar o tempo de residência como sendo o
intervalo entre o aumento significativo da temperatura e o seu declínio
aos níveis anteriores. O tempo de residência pode também
ser medido com um cronômetro, observando-se o tempo gasto pela
frente de fogo para passar por um ponto pré-determinado.
O tempo de residência pode ser calculado através da velocidade
de propagação do fogo e a profundidade (ou largura) da
chama. Profundidade da chama é a distância horizontal entre
duas extremidades da chama. A relação é a seguinte:
tr = P / r
sendo,
tr
= tempo de residência em segundos
P = profundidade da chama em metros
r = velocidade de propagação do fogo em m / s
Uma estimativa do tempo de residência pode ser feita também
com base no tamanho médio das partículas de combustível.
3.5 Calor por unidade de área e perdas de calor
a)
Calor por unidade de área
o calor liberado por unidade de área pode ser estimado através
da intensidade do fogo, simplesmente dividindo-se esta pela velocidade
de propagação, ou seja:
Ha
= I/r
sendo,
Ha
= calor liberado em kcal/m2
I = intensidade do fogo em kcal/m.s
r = velocidade de propagação do fogo em m/s
b) Perdas de calor
O calor liberado pelo material que queima na floresta não é
conhecido com precisão, mas seguramente é menor que os
valores apresentados, pois a combustão em condições
naturais não é completa. Além disto, outras perdas
de calor devem ser levadas em consideração quando se estima
o balanço de energia dos incêndios florestais, dentre eles
a perda por radiação e perda pela presença da umidade.
Alguns trabalhos indicam que a perda por radiação pode
chegar a cerca de 15% do valor máximo do calor de combustão
do material queimado.
A perda devido à presença de água depende do teor
de umidade do combustível e o calor de combustão do material
úmido pode ser estimado através da seguinte equação:
Hw
= Hd . [ 100 - (U / 7) / 100 + U ]
sendo,
Hw
= calor de combustão do material úmido
Hd = calor de combustão do material seco
U = conteúdo de umidade em % de peso seco
Devido a presença de umidade no combustível, há
necessidade de calor para: a) elevar a temperatura da água do
combustível; b) separar a água estrutural da madeira;
c) vaporizar a água existente no combustível; d) aquecer
o vapor d’água até a temperatura das chamas. Às
perdas de calor no processo de combustão do material florestal
em condições naturais, deve-se usar um valor menor do
calor de combustão nos cálculos e trabalhos relacionados
com o comportamento do fogo. Como a variação entre os
diversos tipos de combustíveis florestais não é
muito grande, o valor de calor de combustão nos trabalhos de
comportamento do fogo pode ser considerado como uma constante, cujo
valor recomendado e 4.000 kcal por Kg de material consumido.
3.6 Altura de crestamento
Altura de crestamento pode ser definida com a altura média de
secagem letal da folhagem das árvores, ocorrida durante um incêndio.
Ela é um efeito imediato do fogo é um importante parâmetro
para se estimar os danos causados pelo incêndio ao povoamento,
bem como para o estabelecimento das condições ideais de
uma queima controlada dentro da floresta.
A questão crucial sobre o efeito de qualquer incêndio florestal
é se as árvores sobreviverão ou não. Em
incêndios de copa ou mesmo superficiais de grande intensidade,
normalmente ocorre a morte das árvores. Em incêndios de
baixa, média ou variável intensidade, podem provocar apenas
danos superficiais ou morte parcial no povoamento.
Acima da zona de combustão de um incêndio superficial há
uma faixa dentro da qual a folhagem é crestada e morta pelos
gases quentes que se elevam das chamas. Experiências tem demonstrado
que pelo menos para coníferas, a principal causa da mortalidade
é o crestamento da copa, ao invés de danos ao câmbio.
As cicatrizes eventualmente deixadas pelo fogo na base do tronco, podem
facilitar a penetração de fungos ou insetos, mas não
afetam diretamente a sua sobrevivência. Para morrer apenas por
danos ao câmbio, uma árvore deve ser completamente anelada
pelo fogo e um incêndio suficientemente intenso para provocar
esse anelamento fatalmente será capaz de crestar toda a sua copa.
A morte através do anelamento pode levar vários anos,
enquanto que pelo crestamento da copa é bastante rápido.
Árvores de algumas espécies, porém, podem suportar
a perda de grande parte da copa por crestamento sem mortalidade, emborca
a taxa de incremento seja temporariamente reduzida.
A temperatura alcançada, a determinada altura, pela coluna de
convecção acima do fogo, depende de três fatores,
a intensidade do fogo, a temperatura doa r e a velocidade do vento.
A uma determinada intensidade de fogo, ventos fortes tendem a dissipar
a coluna de convecção horizontalmente, reduzindo a altura
de crestamento letal. A temperatura do ar também é importante
porque o acréscimo de calor necessário para matar a folhagem
depende naturalmente da temperatura inicial.
3.7 Produção de calor
As altas temperaturas geradas pelos incêndios florestais são
importantes componentes do comportamento do fogo e fatores primários
de danos, não apenas à vegetação, como ao
próprio ecossistema local.
A temperatura da chama em um incêndio é cerca de 1250 oC.
Essa temperatura pode ser ainda maior no turbilhão de chamas
de um incêndio de alta intensidade. O material incandescente,
entretanto, tem uma temperatura bem menor, devido à formação
de uma camada de cinzas sobre o combustível que reduz o contato
com o oxigênio e diminui a taxa de combustão. A temperatura
das brasas, por exemplo é aproximadamente 650oC, mas o tempo
de exposição a esse material em um incêndio é
bem maior.
As temperaturas registradas em um incêndio dependem de vários
fatores, como velocidade de propagação, tipo de combustível
e época de queima, dentre outros. A maioria das pesquisas registram
temperaturas máximas entre 600 e 800 oC, embora eles possam às
vezes ser inferiores a 300 oC ou superiores a 1000oC, em incêndios
de baixa e alta intensidade, respectivamente.
Em queimas controladas a temperatura raramente ultrapassa 500 oC, exceto
em fogos de rápida propagação, assim mesmo por
curtos intervalos de tempo.
4. Bibliografia
SOARES,
R. V. Incêndios Florestais - Controle e Uso do Fogo. Curitiba
: FUPEF, 213 p, 1985.
SOARES,
R. V. Prevenção e Controle de Incêndios Florestais.
Curitiba : FUPEF, 72 p, 1979.
BATISTA,
A. C. Incêndios Florestais. Recife : Universidade Federal Rural
de Pernambuco - Curso de Eng. Florestal. 115 p, 1990.
BATISTA,
A. C. Avaliação da Queima Controlada em Povoamentos de
Pinus taeda L. no Norte do Paraná. Curitiba. Tese (Doutorado
em Eng. Florestal), Setor de Ciências Agrárias, UFPR. 108
p, 1995.
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