ECOLOGIA DO FOGO
Nilton
José Sousa
1. INTRODUÇÃO
Historicamente o fogo sempre exerceu grande atração sobre
os seres humanos, estando a evolução da nossa espécie
direitamente ligada a ele, segundo JOHNSON (1970), citado por BAYLEY,
a mais de 500.000 anos o homem vem utilizando o fogo, sendo que nos
últimos 200.000 anos, houve um grande aprendizado sobre esta
utilização.
Deve ser lembrado que da mesma forma que o fogo exerce atração
sobre as pessoas, desperta medo pelo efeito devastador que pode ter,
podendo destruir plantações, florestas, casas, matando
pessoas e animais. Isto tudo, criou no homem uma grande preocupação
para evitar e controlar o fogo, causando muitas vezes um desequilíbrio
na natureza. Segundo LEOPOLD (1963), citado por BAYLEY, a proteção
excessiva contra o fogo pode ser prejudicial, pois sem o controle de
fogo existe acumulo de combustível natural e outros componentes
também naturais que influenciam negativamente o ecossistema.
Portanto torna-se imprescindível alertar sobre os perigos do
fogo. Porém é necessário destacar que após
pesquisas feitas muitos falsos mitos cairão, pelo menos no mundo
cientifico. Mitos esses como a morte de animais e destruição
de florestas por completo. De fato o número de animais, em certas
circunstâncias pode e definitivamente aumenta logo após
uma queimada.
Especificamente sobre as florestas deve ser lembrado que o fogo é
uma força natural para as comunidades de plantas e animais tem
um papel importante. Por exemplo quando compara-se o número de
animais mortos durante uma queima, observa-se que esta mortalidade não
é significativa quando comparada com o aumento das espécies.
O fogo afeta a densidade populacional por alterar o habitat, não
por matar.
Em geral o fogo enriquece espécies de vida selvagem e os tipos
de vegetação. Em locais onde o fogo não ocorre
naturalmente ou não e recomendável a queima natural, deve
ser utilizado o fogo controlado, que atua de forma importante dentro
dos objetivos de manejo (ex - controle de pragas, redução
de fluídos, etc.). O fogo quando usado com pessoal treinado e
bastante seguro, sendo uma das formas mais baratas de manejo alternativo,
porém sua aplicação depende de alguns fatores previamente
analisados, tais como a umidade do solo e do ar, da velocidade e intensidade
do vento, temperatura, e outros, pois cada região ou clima exige
cuidados específicos.
2. TEMPERATURA
A temperatura e sua duração são normalmente medidas
para determinar os efeitos do calor sobre os tecidos vegetais da planta.
A temperatura mais alta da superfície do solo e associada provavelmente
ao acumulo de detritos locais e intensidade de vento criada pelo fogo.
A temperatura e umidade relativa do ar, parecem não afetar a
temperatura do solo em campos de gramíneas. Porém o efeito
do vento pode causar uma variação de temperatura, por
exemplo com ventos variando de fraco para moderado a temperatura pode
variar de 78 para 156 graus oC ao nível do solo. Para combustíveis
de até 7865 Kg/ha e temperatura de superfície de solo
de 66 oC geralmente dura de 0,9 à 5,4 minutos, o que indica que
as sementes das maiorias das plantas podem sobreviver ao fogo de gramíneas.
2.1 Temperatura abaixo da superfície do solo
Abaixo da superfície do solo mineral, a temperatura declina significantemente,
variando de acordo com aspectos como altura das chamas / intensidade
/ tempo e tipo de solo. Analisando dados mais específicos chega-se
a conclusão que a temperatura do fogo tem pouco efeito direto
sobre a matéria orgânica do solo, sobre a população
microbiana e sobre o banco de sementes depositado no solo.
2.2 Temperatura acima da superfície do solo
Acima da superfície
(de 6 a 15 cm) a temperatura aumenta rapidamente, podendo ser um pouco
maior chegando algumas vezes a dobrar em relação a base
do solo. Podendo variar de acordo com a quantidade de combustível
e a velocidade do vento. Em determinadas regiões varia de 102
a 388 Graus o C, e dependendo da quantidade de fluidos (Kg/ha), pode
variar de 83 até 682 oC.
2.3 Temperatura abaixo
do solo (arbustos)
Tendo dados de varias fontes DE BANO et al. (1977), citado por BAYLEY,
reportou as seguintes temperaturas para o chaparral da Califórnia:
temperaturas intensas 685 oC; temperaturas moderadas 430 o C; temperaturas
leves 260 oC. Sendo que estas temperaturas não baixam ate 100
oC na superfície por 15 minutos. Com 25 cm de profundidade as
máximas foram de 195 oC , 175 oC e 90 oC.
2.4 Temperatura acima da superfície
DE BANO (1977), cita
também que a temperatura máxima para a superfície
do solo varia de 260 oC a 685 oC, sendo que a 2,5 cm abaixo do solo
a máxima variava de 195 oC a 90 oC e a 5 cm caia para 50 oC.
2.5 Temperatura sobre o solo
Queimando carvalho TRABAUD (1979), descobriu que as temperaturas mais
altas localizaram-se a 13 m da vegetação em queimadas
de outono.
2.6 Temperatura do tronco das árvores
Já nos troncos das árvores a temperatura no lado oposto
ao vento chega a ser o dobro da temperatura que ocorre no lado em que
o vento bate. A magnitude porém depende da quantidade de combustível
e velocidade do vento. Essa temperatura pode variar de 340 a 380 oC
de um lado e de 700 a 790 oC para o outro. Esses dados foram tomados
em madeira de pinus de 16 a 31 metros, com árvores que tinham
DAP entre 20 e 34 cm.
2.7 Temperatura de ignição
A temperatura do combustível tem que alcançar o limiar
de 346 oC, mais ou menos 40 graus para a combustão ocorrer. A
combustão ocorre quando os gases voláteis são emitidos
do combustível e reagem com o oxigênio do ar para dar a
ignição. Quando o combustível e exposto ao calor
a água evapora e uma destilação toma lugar, a continuidade
do aquecimento depois da retirada da água, resulta na volatilização
de componentes orgânicos que com a reação do oxigênio
vira chama e um processo de auto sustentação toma inicio.
O tempo requerido para a reação de ignição
depende de vários fatores como o calor especifico, intensidade,
densidade do material etc.
3. EFEITOS DO FOGO
3.1 Efeitos do fogo sobre os vegetais
a) Sobre as sementes
As sementes são
bastante tolerantes ao calor. Gramíneas podem tolerar temperaturas
de 82 a 116 oC por cerca de 5 minutos . Essa exposição
a altas temperaturas pode ainda aumentar a porcentagem de germinação.
Após muitas pesquisas chegou-se a conclusão de que se
a semente estiver levemente coberta pelo solo ela poderá sobreviver
a fogo relativamente intenso.
b) Sobre os tecidos vasculares
Os tecidos vasculares
são mortos facilmente pelo calor, que pode matar em uma imensa
gama de temperaturas se estas forem mantida por um tempo razoável.
A Temperatura de 60 graus e chamada de ponto termal de morte.( temperatura
mais baixa depois de um período de exposição.).
Porém as plantas tem como isolante térmico a casca, sendo
que poucos danos ocorrem em árvores que possuem de 1,0 a 1,3
cm de casca, estando a resistência ao calor relacionada a quantidade
de umidade, densidade e espessura da casca.
c) Sobre o crescimento
das plantas
Campos de gramíneas
com acumulo de material vegetal morto, geralmente geram altas temperaturas
por um longo período de tempo após a passagem do fogo
principal, porém os ramos de gramíneas se regeneram rapidamente
e tem crescimento acentuado. Quanto aos rizomas estes estão a
2,5 cm abaixo da superfície do solo e ai não existe massa
de material vegetal morto que possa queimar e afetar o crescimento.
As arvores também mostram uma variedade de resistência
dependendo da profundidade em que se encontram as raízes.
d) Sobre o solo
O fogo tem uma serie
de efeitos sobre o solo e sobre as propriedades da água . Isso
depende de fatos como a intensidade da queimada, tipo de solo , topografia,
clima etc. Sabendo utilizá-lo o fogo prescrevido pode ser uma
ferramenta versátil e benéfica sem danificar a produtividade
do solo ou a propriedade da água. Porém alguns cuidados
devem ser tomados, pois a vegetação, e a camada de húmus
e matéria orgânica, absorve impactos de chuvas, reduzindo
o transporte de matéria do solo pela água e erosão,
o que torna esta camada de extrema importância para a estabilidade
do solo.
Por isso a utilização do fogo deve ser conduzida com cuidado,
principalmente em encostas íngremes, visando principalmente uma
exposição mínima da do solo mineral. Pois Queimadas
intensas aumentam a erosão e enxurradas , já as queimadas
de intensidade baixas , as quais deixam um pouco de detritos e grande
porção de húmus, quase não tem efeitos com
relação a enxurradas e erosão. Normalmente a principal
causa da erosão de massa e a eliminação da estabilidade
providas por vários tipos de raízes, em campos de gramíneas
observa-se que quando as queimas são de pequena intensidade as
perdas do solo são mínimas (exceto em solos arenosos),
pois este tipo de formação vegetal tem como principal
característica o um sistema radicular bem desenvolvido, que em
pequenas queimas é pouco afetado.
e) Sobre a matéria
orgânica do solo
Os detritos e a matéria
orgânica do solo tem muitos benefícios pois ajudam a formar
uma estrutura granular agregada que aumenta a infiltração
se comparadas com o solo limpo , além de ajudar contra a erosão
e estabilizar a temperatura da superfície do solo. Os detritos
ajudam também a retardar a evaporação da umidade
do solo. Muitos fatores afetam a decomposição da matéria
orgânica, a interação de micróbios do solo
e resíduos da floresta são muito importantes e são
controlados pela água, temperatura, aceração, PH
dentre outros. As populações bactérias declinam
imediatamente após a queimada, porém podem aumentar muito
dentro do período de um mês . Alguns pesquisadores afirmam
que de 30 a 45 graus aproximadamente o crescimento bacterial tem mais
eficiência e que depois disso entra em declínio.
Deve ser lembrado que a acumulação excessiva de detritos,
também pode ter efeitos negativos, podendo inibir o desenvolvimento
de sementes durante os anos úmidos e normais, pois os detritos
baixam a temperatura do solo o que causa um declínio na atividade
bacterial. Porém em anos secos quando as queimadas são
comuns os detritos são importantes para o isolamento e proteção
do solo.
A decomposição dos detritos funciona melhor nos temperaturas
entre 30 e 37 graus, portanto o fogo não causa danos em gramíneas
altas e com acumulo de detritos, ou em campos com gramíneas baixas
como o pasto, pois nesta situação não existe um
acumulo acentuado de detritos (pode variar de 0,6 a 1,2 cm).
Em áreas de cerrado geralmente, a queima ocorre em temperaturas
muito elevadas, por isso o fogo remove uma porção muito
alta de matéria orgânica. Já em florestas a ação
do fogo pode reduzir de 3 a 70% a camada orgânica florestal e
seus resíduos. Sendo que nas temperaturas entre 100 e 200 graus
ocorre uma destilação não destrutiva, já
entre 200 e 300 graus aproximadamente 80% das substâncias orgânicas
são destruídas pela destilação que ocorre.
f) Sobre a umidade e
porosidade do solo
O crescimento rápido
das plantas durante a primavera logo após as queimadas, tem demonstrado
que ocorre uma redução na umidade do solo em camadas superficiais,
esta redução e suavizada a que a profundidade do solo
aumenta, observa-se também que após as queimadas pode
ocorrer até 2% de redução na evaporação
na superfície do solo. Geralmente em campos de gramíneas,
o fogo reduz muito pouco a infiltração de água.
Porém, em chaparrais usualmente ocorre uma redução
mais acentuada na capacidade de infiltração do solo. Geralmente
solos desumificados em áreas de chaparrais são formados
em conseqüência do fogo, mas isto não ocorre extensivamente
na maioria das áreas queimadas.
3.2 Efeitos do fogo sobre
a fauna do solo
A remoção
dos detritos do solo pelo fogo causa uma mudança dramática
no suplemento de comida, conteúdo de água e PH do solo,
o que causa uma grande redução nos animais do solo. A
fauna do solo e extremamente variada e importante para o solo que depende
também de substâncias como os detrito e umidade para se
manterem. O fogo diminui o suplemento alimentar na superfície,
a umidade diminui e o PH aumenta. Isso causa a queda de muitos organismos
e requer alguns anos para que o equilíbrio populacional se estabeleça
novamente. Pois embora o aumento de elementos materiais ocorram em determinadas
camadas do solo, após o fogo este aumento e diretamente proporcional
a quantidade de material queimado, sendo válido lembrar que em
alguns casos como em ecossistemas frios ou secos o fogo e mais benéfico
na incorporação de materiais da madeira no solo florestal.
Quanto ao PH do solo, 3 anos após a queima das áreas,
ocorre uma volta ao nível normal de acidez ( se a queima for
leve).
3.3 Efeitos do fogo sobre
a vida selvagem
Muitas pessoas acreditam
que o fogo e destrutivo para os animais, porém em grandes queimadas
as mortes de animais são raras. Os benefícios do efeito
do fogo em "habitats de dependência de fogo " (fire
dependent habits) normalmente compensam as perdas. Animais são
um produto do habitat, o quer por sua vez não deixa de ser um
produto do fogo.
Portanto, de um determinado ponto de vista as queimadas podem ser consideradas
benéficas para os animais selvagens, pois através delas
ocorre a regeneração acentuada de várias espécies
vegetais e a dispersão de sementes e animais por áreas
antes desocupadas. Esta dispersão e regeneração,
servirão de alimento para uma determinada camada da cadeia alimentar,
que com a oferta alimentar aumentarão sua população,
que servirá de alimento para animais que estão no topo
da cadeia alimentar, que também terão sua população
aumentada, fechando a cadeia alimentar. Porém, em alguns casos
as queimadas podem não ser benéficas para vida selvagem,
visto que normalmente algumas espécies não são
beneficiadas pela ação da queima.
Do ponto de vista histórico, as queimadas sempre influenciaram
o habitat selvagem, isto desde a idade da pedra, onde a partir do domínio
do fogo o homem pode, entre outras coisas, intimidar e caçar
grandes animais, portanto a influência do fogo sobre os animais
historicamente, além da mortalidade de animais em grandes incêndios,
esta relacionada a caça predatória de vários animais.
Sendo assim, pode-se concluir que as queimadas fazem parte do desenvolvimento
de vários habitats, com efeitos positivos e negativos, em algumas
situações garantindo a perpetuação de vários
habitats é conseqüentemente de vários animais selvagens,
e em outras tendo o efeito inverso reduzindo a oferta de alimentos,
que conseqüentemente reduz a população de várias
espécies animais.
a) Efeitos do fogo sobre
pequenos animais
A sobrevivência
de pequenos mamíferos depende de vários fatores tais como
: uniformidade , intensidade, tamanho e duração do fogo
tanto quanto a mobilidade, posição do animal relativa
ao fogo, etc. Visto que muitos animais pequenos como os roedores, vivem
em buracos abaixo da superfície, estando isolados e protegidos
da ação das chamas (mesmo assim alguns ainda podem morrer
sufocados). Outros animais lentos que estão na superfície
podem morrer pela ação direta das chamas, ou pelo aumento
da temperatura, pois varias espécies, suportam temperaturas acima
de 60 oC, por pouco tempo, dependendo da umidade do ar.
Algumas espécies, entre elas pequenos mamíferos, tem sua
população reduzida por alguns anos, após uma queimada,
pois não resistem as mudanças drásticas provocadas
pela ação do fogo. Porém existem pequenos mamíferos
que após as queimadas adaptam-se perfeitamente as condições
do habitat, podendo inclusive ocorrer um aumento da população.
O mesmo ocorre com esquilos, onde algumas espécies podem sumir
logo após as queimadas e outras podem aumentar de densidade.
b) Efeitos do fogo sobre
os pássaros
Com relação
a pássaros os efeitos de uma queimada dependem acima de tudo
da estação do ano e da intensidade do fogo. Durante uma
queimada relativamente leve em uma época inativa do ano, o aumento
de fonte de comida causada pela queima pode ser benéfica para
muitos pássaros. Estudos foram feitos considerando espécie,
zonas, alimento dentre outros aspectos, onde foi observado que de uma
espécie de pássaro para outra, ocorrem situações
particulares após uma queima.
Um grande numero de espécies após as queimadas aumenta
em densidade populacional, sendo que outras espécies podem sumir
de áreas queimadas por vários anos até que estas
estejam novamente restabelecidas com suprimentos necessários
para estes pássaros.
c) Efeitos do fogo sobre
grandes animais
De maneira geral, os grandes animais como felinos, coiotes e outros,
sofrem os mesmos efeitos dos outros animais, dependendo da sua capacidade
de adaptação podem ter suas populações aumentadas
ou reduzidas ( ex - alce).
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