INFLUÊNCIA
DAS QUEIMADAS DA AMAZÔNIA SOBRE O EFEITO ESTUFA
Nilton
José Sousa
1.
INTRODUÇÃO
A emissão e acumulação de gases como o dióxido
de carbono na atmosfera, é conhecida mundialmente como efeito
estufa, ou de uma maneira mais simplificada como o aquecimento da terra
pela emissão excessiva de gases poluentes.
Entre as principais causas do efeito estufa estão: a queima de
combustíveis fósseis (tanto a nível industrial
como urbano); a devastação e queima de áreas florestais
como a floresta Amazônica; a associação destes e
outros processos. Sendo assim, existem muitas controvérsias e
muitas teorias sobre este assunto, onde algumas entidades ecológicas
intitulam as queimadas da Amazônia como um dos principais causadores
do efeito estufa.
Sendo assim o presente trabalho pretende demonstrar de maneira sucinta
as diferentes interpretações sobre as causas e consequências
das queimadas na Amazônia sobre o efeito estufa.
2. CONSIDERAÇÕES GERAIS
O clima da Terra e um produto de interações complexas
da atmosfera, oceanos, calotas glaciais, seres vivos e até mesmo
rochas e sedimentos. Quando o sistema climático esta em equilíbrio
como estava antes da Revolução Industrial, que gerou um
grande aumento das emissões de gases-estufa, a radiação
solar absorvida encontrava-se em equilíbrio perfeito em relação
à radiação emitida para o espaço pela Terra
e atmosfera. Os fatores que alteram este equilíbrio mudando o
clima são chamados de agentes de coerção radioativa,
entre estes agentes estão os gases-estufa.
Segundo LEGGET (1992), gases-estufa são aqueles que provocam
a retenção da radiação infravermelha na
atmosfera, aquecendo assim a superfície da Terra e camada inferior
da atmosfera (Figura 01). Traços destes gases têm estado
na atmosfera durante a maior parte da história da terra. O vapor
d’água, por sua abundância, é de longe o mais
importante gás natural causador do efeito estufa. O dióxido
de carbono (CO2), o segundo gás-estufa em importância,
é lançado na atmosfera de maneira tanto natural quanto
não natural. Vem sendo lançado de maneira natural pelos
vulcões ao longo da história da Terra, percorrendo os
vários ciclos que o carbono segue na natureza. Se não
fosse a presença do CO2 a temperatura na superfície da
Terra seria cerca de 33 oC mais baixa do que é hoje (tornando-se
nociva a vida). Mas o CO2 também entra na atmosfera de forma
não natural em decorrência de atividades humanas habituais,
principalmente queima de combustíveis fósseis e destruição
das florestas. Além do CO2, existem outros gases que são
de extrema importância no contexto do efeito estufa.
2.
PRINCIPAIS GASES-ESTUFA DA ATMOSFERA
2.1 Vapor d’água
Segundo TUBELIS & NASCIMENTO (1986), as fontes naturais do vapor
d’água são as superfícies de água,
gelo e neve, a superfície do solo, as superfícies vegetais
e animais. A passagem para a fase de vapor é realizada pelos
processos físicos de evaporação e sublimação,
e pela transpiração.
Segundo OMETTO (1981), o vapor d’água é um dos dos
constituintes variáveis do ar atmosférico, chegando a
ter até 4% em volume. TUBELIS & NASCIMENTO (1986), citam
que este volume e extremamente variável e que esta variabilidade
provém da extrema facilidade com que consegue mudar de fase,
nas condições atmosféricas reinantes. Essas mudanças
de fase são acompanhadas por liberação ou absorção
de calor latente, que associadas com o transporte de vapor d’água
pela circulação atmosférica, atuam na distribuição
do calor sobre o globo terrestre.
Por apresentar estas características o vapor d’água
é considerado o mais importante gás-estufa, além
disso, com a ação do efeito estufa a atmosfera se tornará
mais quente contendo uma quantidade maior de vapor d’água
em decorrência de índices mais altos de evaporação.
2.2
Dióxido de Carbono (CO2 )
As principais reservas de carbono da natureza são a biota, o
solo e os oceanos. A biota que consiste em toda vida sobre a superfície
da Terra, dominada em termos de volume, pela vida vegetal, absorve cerca
de 102 Gt (Gigatonelada = 1 bilhão de toneladas), de carbono
por ano do CO2 liberado durante a fotossíntese, isto representa
cerca de 14% do teor total de CO2 da atmosfera. Em contrapartida a biota
devolve anualmente cerca de 30 Gt de carbono à atmosfera. A decomposição
bacteriana de matéria vegetal morta, acrescenta mais 50 Gt de
carbono ao CO2 devolvido à atmosfera. Há portanto certo
equilíbrio no carbono trocado entre a biota terrrestre e a atmosfera,
sendo retidas por ano talvez 2 Gt de carbono na biota terrestre.
Nos oceanos o CO2, também é absorvido da atmosfera, em
decorrência de processos tanto químicos como biológicos.
O dióxido de carbono é recebido em solução
sob a forma de íons de bicarbonato de, enquanto os fitoplânctons
são sorvedores de dióxido de carbono em decorrência
da fotossíntese. Um total de 92 Gt de carbono por ano é
absorvido da atmosfera desta maneira. Das águas superficiais,
perto de 90 Gt de carbono são devolvidas à atmosfera a
cada ano. Por processos físicos e biológicos: liberação
de dióxido de carbono diretamente das águas marinhas por
difusão em decorrência da respiração dos
fitoplânctons, ficando cerca de 2 Gt retidas anualmente nos oceanos.
Sendo assim, sem interferência humana, o carbono na natureza estaria
em equilíbrio, sendo que o excedente de carbono que fica armazenado
voltaria a natureza pela ação dos vulcões. Entretanto
a ação do homem, desequilibra este ciclo, desde a revolução
industrial.
A queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo
e gás), gera anualmente mais de 5,7 Gt de carbono na atmosfera,
a estas devem ser acrescidas mais 2 Gt, provenientes da queima e derrubada
de florestas. Este carbono mais o captado pelos oceanos e pela biota,
resultam em um aumento líquido de 3 Gt de carbono por ano na
atmosfera. Em outras palavras, desde 1860 os seres humanos lançaram
cerca de 175 Gt de carbono na atmosfera.
Extrapolando estes números para 200 anos, a contar do início
da era industrial, o homem poderá lançar mais carbono
na atmosfera do que já existe atualmente na massa total de seres
vivos do planeta. Além disso, devem ser consideradas as reservas
de petróleo e carvão que se foram totalmente exploradas
pelo homem aumentaram em 2.000 Gt o carbono da atmosfera, mais do triplo
do que existe atualmente na atmosfera.
Quanto aos efeitos disto sobre a temperatura da Terra é impossível
precisar o que acontecerá, pois deve ser considerado que além
dos combustíveis fósseis existem as retroalimetanções
para o sistema climático.
2.3
Metano (CH4)
O metano é o segundo gás-estufa em importância,
produzido durante a decomposição anaeróbica. As
principais fontes de metano são arrozais, pântanos, animais
domésticos ou não, cupins, gás natural e outros
meios anaeróbicos. A taxa de metano na atmosfera aumenta 1% ao
não, sendo pouco conhecidas as causas deste aumento. Algumas
delas podem ser o aumento dos rebanhos domésticos, a expansão
de cultura de arroz e principalmente os vazamentos de gás natural
ou aterros. A permanência do metano na atmosfera e pequena (menos
de 10 anos), sendo consumido na atmosfera e em menor escala no solo.
O metano tem um potencial de aquecimento global de 63 num período
de 20 anos, ou seja, 1 Kg de metano nesse período produzirá
63 vezes o aquecimento global de 1 Kg de dióxido de carbono,
portanto o metano e 20 vezes mais potente que o dióxido de carbono.
2.3
Óxido Nitroso
Como gás-estufa o óxido nitroso é ainda mais potente
que o metano, e sua eficácia é cerca de 230 vezes superior
à do CO2. O óxido nitroso é produzido nos solos,
acredita-se virem dos solos 90% das emissões de N2O. É
grande a possibilidade de o N2O concorrer para o aquecimento global,
por ser um absorvente eficaz de radiação infravermelha
e permanecer muito tempo na atmosfera. O principal meio de dissipação
deste óxido é a luz ultra violeta estratosférica,
que o destroi, porém essa dissipação e bastante
lenta podendo demorar até 150 anos. De maneira geral pouco se
sabe sobre a quantidade real de N2O que existe e quais seriam seus efeitos
sobre o aquecimento do planeta.
3.
EFEITOS DO DESMATAMENTO SOBRE O EFEITO ESTUFA
3.1 Considerações gerais sobre a região Amazônica
A região Norte do Brasil é composta pelos estados do Amazonas,
Acre, Rondônia, Roraima, Pará e Amapá. Esta região
ocupa uma área de 3.858.502 Km2, ou seja 45,33% da área
total do Brasil e nela concentra-se a floresta amazônica dona
de uma das maiores diversidade biológicas do planeta. Paralelamente
a toda esta grandeza territorial e riqueza natural, nestes estados encontra-se
uma das populações mais pobres do Brasil, que historicamente
convivem com a floresta, sendo o fogo um dos seus principais aliados
para sobrepor a floresta quando isto se faz necessário. Portanto
as queimadas na Amazônia, tem grande importância na limpeza
de áreas para a agricultura de subsistência da região,
fazendo parte da cultura do povo desta região.
Entretanto nos últimos anos a Amazônia passou a ser considerada
internacionalmente como a campeã mundial de queimadas, o que
evidentemente não é ocasionado pela agricultura de subsistência,
mas sim por outras atividades que passar a fazer parte do dai a dia
desta região. Além disso, deve ser lembrado que no Brasil
existem outras regiões onde a queima e praticada, comprovando
que as queimadas não são uma exclusividade da região
Amazônica.
3.1
Análise do efeito das queimadas em florestas tropicais, pelo
grupo ecológico GREENPEACE
Dos 8.511.960 Km2 do Brasil, quase 2,9 milhões eram cobertos
pela floresta Amazônica até o final da década de
60. Hoje, a extensão florestal do país foi reduzida a
cerca de 2.200.000 Km2. Mesmo com essa redução, o Brasil
ainda é o responsável por 27,5% de todas as florestas
tropicais do mundo.
O padrão de desmatamento da Amazônia brasileira é
bastante diferenciado. Alguns trechos estão perdendo rapidamente
sua cobertura florestal, enquanto outros continuam praticamente intocados,
o caso de desmatamento mais progressivo ocorreu no estado de Rondônia,
que em 1980 tinha 8.000 km2 de área desmatada, passando a 60.000
km2 em 1987. De maneira geral a Amazônia teve seu desmatamento
acentuado a partir de 1980. Em 1975 foi estimado que 29.000 km2 tinham
sido desmatados, passando para 125.000 km2 em 1980 e 400.000 km2 em
1988, ou seja 69% dos desmatamento ocorreu a partir de 1980.
O desmatamento leva a liberação de grandes quantidades
de carbono proveniente da biomassa na atmosfera da terra, onde se transforma
no dióxido de carbono, que é o gás responsável
por quase metade de efeito estufa. Além disso, são liberadas
grandes quantidades de outros gases causadores do efeito estufa como
o metano e o óxido nitroso.
A atual liberação de carbono proveniente de qualquer tipo
de floresta tropical deve ser comparada ao total de emissões
de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis
no mundo inteiro (principalmente nos países menos desenvolvidos),
estimadas em 5,6 bilhões de toneladas métricas em 1989.
Portanto, as florestas tropicais são responsáveis por
30% da concentração de dióxido de carbono na atmosfera
global, concentração que por sua vez é responsável
por metade do aquecimento global. Quando acrescentamos outros gases-estufa
emitidos pelo desmatamento das florestas tropicais, o metano e o óxido
nitroso, a contribuição geral do desmatamento das florestas
para o aquecimento global pode ser estimada em cerca de 18 a 19%, talvez
mais. Além disso, a contribuição dos desmatamentos
para a concentração de CO2,, parece estar crescendo mais
do que a dos combustíveis fósseis. Extrapolando essa tendência,
no início do próximo século as florestas tropicais
poderiam alcançar um pico de 5 bilhões de toneladas métricas
de dióxido de carbono, diminuindo a partir dai, pois não
haveria mais florestas para serem destruídas.
Deste total de dióxido de carbono, liberado na atmosfera pela
queima das florestas tropicais, atualmente a floresta Amazônica
representa 32,1% ou seja o maior percentual entre todas as florestas
tropicais do mundo.
3.2
Comparação entre a análise das queimadas na Amazônia,
segundo a visão do GREENPEACE e do autor KIRCHHOFF
O autor em questão, como os pesquisadores que escreveram o relatório
do GREENPEACE sobre aquecimento global também consideram as queimadas
como produtoras de CO2,, causando enormes prejuízos às
plantas e animais da região, fato que futuramente pode vir a
comprometer a composição e a qualidade da atmosfera, contribuindo
também para o efeito estufa. Porém os números dados
por este autor são menos alarmantes que os do GREENPEACE. Enquanto
o GREENPEACE, garante que as queimadas na região tropical representam
30% do dióxido de carbono lançado anualmente na atmosfera.
KIRCHHOFF afirma que as queimadas em todo mundo representam 25% do CO2
produzido por todas as fontes de produção, sendo as queimadas
da região tropical reponsáveis por apenas 11,2%, deste
total de combustíveis.
Segundo o GREENPEACE, a percentagem de 30% do CO2, produzido pelas florestas
tropicais representa metade do aquecimento global, enquanto que para
o outro autor as queimadas contribuem de maneira global para o efeito
estufa, porém não de forma expressiva.
Para KIRCHHOFF, a região da Amazônia não é
o principal responsável pelo processo de emissão de gases
para a atmosfera, alertando para que a legislação brasileira
proíba as queimadas, além de reduzir a queima de combustíveis
fósseis. Porém, para o GREENPEACE, a floresta amazônica
representa 32,1% das queimadas na região tropical e consequentemente
um terço do dióxido de carbono lançado na atmosfera
anualmente.
4. CONCLUSÃO
Se analisarmos a emissão de gases na atmosfera, como uma consequência
para o aquecimento da Terra, encontraremos evidências cientificas
que comprovarão este fenômeno, bem como são indiscutíveis
as evidências de que as queimadas emitem um grande número
de gases que passam a funcionar na atmosfera como gases-estufa. Porém,
na maioria dos casos a maior parte das informações que
tentam prever as consequências do efeito estufa, são baseadas
em teorias que ainda precisam ser comprovadas.
Este fato é admitido inclusive no relatório do grupo GREENPEACE,
que ao tentar demonstrar que a Terra esta tendo um aquecimento acelerado
e que uma das causas deste aquecimento são as queimadas admite,
em muitos momentos que pouco se sabe sobre as reais consequências
do efeito estufa. Além disso, deve ser considerado que a emissão
de CO2 na verdade e muito mais intensa e constante nas áreas
urbanas do que em regiões como a Amazônia. Isto deve-se
ao fato de que nas zonas urbanas as indústrias e a circulação
de automoveis tem um ritmo acelerado e constante, ao passo que as queimadas
antes de tudo estão relacionadas ao clima .
5. BIBLIOGRAFIA
KIRCHHOFF, V. W. U. Queimada na Amazônia e o efeito estufa. Ed.
Contexto, São Paulo, 1992.
JEREMY
L. (Editor responsável). Aquecimento global. O relatório
do GREENPEACE. Ed. Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro
- RJ, 1992.