O
"Grupo de Debates em Proteção Florestal" promoveu
um debate sobre INCÊNDIOS FLORESTAIS. As dúvidas enviadas
ao grupo foram respondidas pelo professor Ronaldo Viana Soares (rvsoares@floresta.ufpr.br),
do Departamento de Ciências Florestais da UFPR.
Perguntas e respostas
O
debate que resultou nesta coletânea de perguntas e respostas foi
realizado nos meses de setembro e outubro de 2001 pela lista de debates
em Proteção Florestal. Nesta ocasião, o pesquisador
Ronaldo Viana Soares, professor de Incêndios Florestais do Curso
de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Paraná, respondeu
aos participantes.
Para
participar da lista basta mandar um email para
assinar-protecaoflorestal1@grupos.com.br
1) Todos os anos vemos nos meios de comunicação
as queimadas na Amazônia e um grande número de incêndios,
que ocorrem nos parques estaduais e nacionais. Diante disto, gostaria
de perguntar o seguinte:
a)
Existe alguma política definida de prevenção e
controle de incêndios por parte do governo federal e dos governos
estaduais e federais?
R:
O governo federal, atavés do PREVFOGO (Sistema Nacional de Prevenção
e Combate aos Incêndios e Queimadas) do IBAMA tem uma política
de contole de incêndios, principalmente nas unidades de conservação
e de controle de queimadas em todo o país, principalmente no
chamado arco do desflorestamento (amazônia). Esta atuação
tem melhorado nos últimos anos, apesar de ainda ser deficiente.
Alguns estados também possuem planos estaduais de prevençao
e combate a incêndios e os mais organizados neste assunto são
o Paraná, Minas Gerais, São Paulo e Mato Grosso. Ainda
falta muito a fazer neste sentido e geralmente a atuação
dos estados neste campo se dá quando ocorre uma estação
seca muito intensa, agravando o problema dos incêndios. Quando
o inverno é chuvoso (como neste ano), o problema é deixado
de lado.
b) Nosso problema com queimadas é cultural ou econômico?
R:
A questão das queimadas, não apenas no Brasil, como em
quase todo o mundo é tanto cultural como econômico. Cultural
porque desde que a espécie humana dominou o fogo ela o tem usado
em seu benefício. Aliás, quase toda evolução
da espécie humana se deve, direta ou indiretamente, ao uso do
fogo (comida, carros, foguetes, etc...). Quanto ao lado econômico,
o pequeno agricultor não outro meio de preparar o terreno para
plantio. O fogo é barato, prático e ainda libera nutrientes.
Na área florestal o fogo pode também ser um grande aliado
em práticas silviculturais e mesmo de dontrole de incêndios.
Os Estados Unidos queimam mais de 2 milhões de hectares anualmente,
sob forma controlada, para prevenir incêndios (redução
de combustível), melhorar o habitat da fauna, etc. Atualmente
o USForest Service teve um aumento no orçamento para incrementar
o programa de queimas controladas, principalmente no oeste do país,
para evitar os catastróficos incêndios que teêm ocorrido
ultimamente devido ao excessivo aumento do combustível em áres
florestais.
c) Em relação a Amazônia, a imprensa noticia
que o Brasil queima milhares de ha anualmente, e parece que só
nós temos queimadas no mundo. Vocês tem dados comparativos
entre a área queimada no Brasil e em outras regiões do
mundo?
R:
Individualmente, devido a sua grande extensão territorial, o
Brasil é o país que apresenta a maior área queimada.
Mas no sul da Ásia (Indonésia, Malásia, Tailândia,
Filipinas) e na África o fogo é usado em larga escala
e se somados aquelles países, a área se torna maior do
que a brasileira. Não se deve esquecer também a grande
área queimada nos Estados Unidos (ver
questão anterior).
d) O nível de poluentes emitidos pelas queimadas é
outro motivo de preocupação, a impressão que se
tem e que o Brasil é o grande vilão em relação
a emissão destes gases. Comparando as queimadas brasileiras com
a erupção de um vulcão por exemplo isto é
significativo? Existem estudos que abordam estes temas e o nível
de emissão do Brasil?
R:
Realmente, a impressão que se tem ao ler algumas notícias
e ouvir certos palestrantes em congressos e similares é que o
Brasil está poluindo o mundo através das queimadas das
regiões amazônica e central. Entretanto, acredito que isto
seja política dos Estados Unidos para desviar a atenção
dos outros, visto que eles são os maiores poluidores do mundo.
O problema mais sério de emissão de gases não é
a queima de biomassa, mas sim a de combustíveis fósseis.
Nos Estados Unidos, as emissôes de queimas de biomassa não
passam de 7% do total, enquanto a dos automóveis chega a 60%.
No mundo a proporção é um pouco diferente, mas
mesmo assim as emissões de biomassa não passam de 25%
do total. Além disso, as emissões de queima de biomassa
são cerca de 90% vapor d'água de CO2, ambos não
poluentes, enquanto as emissões de combustíveis fósseis
possuem altas concentrações de monóxido de carbono,
óxidos de enxofre (responsáveis pela chuva ácida)
e óxidos de nitrogênio, todos altamente poluentes. Com
relação às erupções vulcânicas,
fenômeno natural, existem sim informações de que
elas contribuem mais do que as queimadas no total de emissões
de CO2 (não consegui encontrar o artigo que dá os números).
Por tudo isto, é falsa a impressão de que a queima de
biomassa é a maior responsável pela poluição
do mundo. Não se deve esquecer ainda que a queima de biomassa
é um fenômeno natural que sempre existiu no mundo pois
os raios sempre provocaram incêndios, desde o momento em que a
evolução implantou as espécies vegetais (biomassa)
no planeta.
2)
Atualmente as torres de incêdio funcionam com operadores. Qual
é a possibilidades destes operadores serem substituídos
por câmeras?
R:
Existe a possibilidade de substituição dos vigilantes
por sensores nas torres de observação e isto já
ocorre em alguns países da europa, como Espanha, França
e Itália, por exemplo. No entanto, no atual estágio de
desenvolvimento dos sensores automáticos, pode-se dizer que o
melhor ainda é uma pessoa fazendo a vigilância na torre.
3)
Seria viável a utilização de câmeras infravermelho,
ou outros espectros luminosos?
R:
Inicialmente os sensores eram camêras de infravermelho, que tiveram
alguns problemas, como por exemplo excesso de alarmes falsos e demora
na detecção quando o fogo começava no interior
de uma floresta densa. Por isto os sensores atuais são câmeras
óticas, que comparam imagens. Qualquer alteração
na paisagem soa um alarme e o operador da central observa no monitor
se é uma fumaça ou outra coisa.
4)
A estrutura de controle, monitoramento, detecção de incêndios,
existente no Brasil é eficiente?
R:
No Brasil, como um todo, o sistema é deficiente. No entanto existem
várias empresas que têm sistemas de controle (prevenção,
detecção e combate) muito eficientes, comparáveis
aos dos países mais desenvolvidos neste campo. O sistema de monitoramento
através de imagens de satélites, feito pelo IBAMA em parceria
com o INPE é eficiente para detectar pontos de calor e fiscalizar
queimadas mas não pode ser usado para detecção
em tempo real de incêndios, primeiro porque o satélite
somente passa três vezes ao dia e segundo porque ele identifica
pontos de calor, não distinguindo se é uma queima controlada,
uma fogueira ou um incêndio.
5)
Como é esta estrutura em outros países da America do Sul?
R:
Na América do Sul o único país que tem sistemas
eficientes, tanto no setor público como no privado é o
Chile. Lá a CONAF (setor público) funciona muito bem e
as empresas florestais também dispõem de sistemas de prevenção
e combate muito eficientes. Os demais, que apresentam alguma atividade
florestal (Argentina, Uruguai, Colômbia, Venezuela e Paraguai)
apresentam situação semelhante à brasileira, isto
é, setor público pouco eficiente e algumas empresas florestais
com sistemas razoáveis (não se comparam às melhores
empresas brasileiras).