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Macaco-Prego
Macaco-Prego,
como controlar esta nova praga florestal?
Valmir José Rocha
Palavras
chaves: praga florestal, Cebus apella, Pinus spp.;
Introdução
O
macaco-prego é a espécie de primata que apresenta maior distribuição
geográfica entre as espécies neotropicais, ocorrendo desde o norte da
Colômbia (com possibilidade de ocorrência ao sul da América Central)
até o sul da Argentina, sendo limitado à oeste pela Cordilheira dos
Andes e a leste pelo oceano Atlântico (HILL, 1960).
Esse
primata é encontrado nos mais diferentes tipos de florestas ao longo
de sua distribuição. Vive em grupos estáveis, com organização social
de machos e fêmeas apresentando alta coesão entre os membros do grupo
(IZAWA, 1980; ESCOBAR-PÁRAMO, 1989). Os grupos apresentam números de
integrantes variando entre 6 a 30 indivíduos sempre liderados por um
macho dominante (FREESE & OPPENHEIMER, 1981).
Devido
à sua dieta onívora, o macaco-prego é uma espécie com grande capacidade
de adaptação aos ambientes alterados pelo homem. Sobrevive em áreas
de florestas fragmentadas, mínimas e degradadas desde que tenham acesso
a plantações ao redor de seu ambiente (ROCHA, 1992). E é justamente
nessa situação que essa espécie é vista como uma praga por produtores
rurais, pois invadem plantações e passam a consumir pomares, milharais,
canaviais e até mesmo plantações de Pinus spp.
Nesta
última, encontram um recurso alimentar abundante e disponível o ano
todo que é a resina do Pinus. Os primatas atacam quase sempre
o terço superior da árvore, causando às vezes um anelamento pela retirada
da casca, conseqüentemente esta parte seca e posteriormente, cai principalmente
pela ação do vento. A ação dos animais se agrava principalmente durante
a estiagem, quando ocorre uma menor oferta de seus alimentos naturais
(PIZANI, 1997).
Outra
constatação importante é que, além do prejuízo causado à árvore, a ação
dos primatas, também pode aumentar a possibilidade de ocasionar um acidente
de trabalho pela queda dos ponteiros nos operários durante o corte da
madeira (PIZANI, 1997).
Os
problemas mencionados acima são graves, e na tentativa de solucioná-los
é imprescindível responder uma questão básica que é: Por que essa espécie
de primata esta se alimentando de resina de Pinus sp.?
Três
hipóteses são formuladas e precisam ser investigadas em detalhes:
-
Os
animais são atraídos aos Pinus devido à alta palatabilidade
da resina ;
-
Existe
uma escassez de recursos naturais forçando os animais a procurar
novas fontes de alimentos;
-
Existe
um aumento populacional dos macacos devido à ausência de predadores
e alta disponibilidade de recursos.
Neste
trabalho foram feitas propostas para controlar ou minimizar os ataques
de Cebus apella em reflorestamento de Pinus spp.
As
propostas para o controle dos macacos–pregos nas plantações de Pinus
envolvem melhoramentos genéticos de Pinus, manejo das áreas com
Pinus e das área nativas e o manejo dos animais.
Quanto
ao melhoramento genético das plantas, é importante que se busque o desenvolvimento
de novas variedades que produzam resina impalatável para Cebus apella.
QUANTO AO MANEJO DAS ÁREAS, AS PRINCIPAIS MEDIDAS A SEREM TOMADAS SÃO:
-
Manter
em dia o desbaste dos Pinus.
-
Fazer
aceiros para evitar pontes naturais (galhos) entre a área de Pinus
e a área de floresta nativa.
-
Criar barreiras de proteção às florestas de Pinus com outras
culturas, tais como eucaliptos e araucárias, ou outras espécies
que não sejam de interesse do animal.
-
Quando possível fazer a substituição do Pinus por outras
espécies (Ex.: eucaliptos).
-
Avaliar a disponibilidade de recursos naturais para Cebus apella
para verificar se existe a necessidade de se fazer um enriquecimento
ambiental, com espécies nativas utilizadas pelos animais.
-
Reintrodução de predadores naturais.
QUANTO AO MANEJO DOS ANIMAIS, ENVOLVE-SE MÉTODOS QUE VISAM O CONTROLE
POPULACIONAL ATRAVÉS DE
-
Vasectomização dos machos dominantes. Esse método é importante,
pois, os animais não perdem sua posição hierárquica dentro do grupo
e continuam copulando.
-
Translocação de grupos problemas ou parte destes para
outras áreas.
ENTRETANTO
PARA QUE SE POSSA REALIZAR O MANEJO DOS ANIMAIS É NECESSÁRIO A REALIZAÇÃO
DE ALGUNS ESTUDOS PRÉVIOS TAIS COMO:
-
Acompanhamento dos animais para que se possa escolher
o melhor local para a realização de capturas e determinar quais e
quantos indivíduos deverão ser capturados;
-
Realizar estimativas populacionais de Cebus apella
na área.
-
Determinar as estratégias alimentares dos animais sobre
Pinus.
-
Determinar se existe a presença de predadores naturais.
-
Realizar estimativas do prejuízo causado pelos animais.
-
Encontrar uma nova área de floresta preferencialmente
sem a presença de Cebus apella, com condições de abrigar
os animais que serão translocados.
Todos
os métodos exigem a necessidade de especialistas, para que ocorra sucesso
na sua realização e preserve à integridade dos animais manejados, pois
como espécime da fauna brasileira, Cebus apella é uma espécie
protegida por lei.
Discussão
Apesar
da relação macaco-prego x Pinus ser antiga, com relatos por parte dos
produtores rurais de ataques às plantações de Pinus na década
de 1950, nos últimos 10 anos os ataques tem se intensificado (obs. pess.).
Tal fato pode estar relacionado com as três hipóteses levantadas neste
trabalho. Uma grande preocupação é a hipótese da alta palatabilidade,
pois se os animais passaram a se alimentar da resina e apreciaram, ocorre
um aprendizado que é transmitido para as próximas gerações. Esse comportamento
peculiar de transmissão de conhecimento é denominado "pré-cultura",
adquirido devido às situações do ambiente que levam os animais a buscarem
novas fontes de alimentos, que normalmente não seriam utilizadas (IZAWA
& MIZUNO, 1977; ROCHA et. A.l., 1998).
Quanto
ao manejo dos animais, estudos anteriores onde a translocação foi testada
(Rocha 1992) em uma área onde 22 indivíduos de Cebus apella causava
danos a plantações e experimentos da Fazenda Escola da Universidade
Estadual de Londrina, 14 foram retirados. Atualmente o grupo restante
na área de floresta da Universidade se encontra com 14 indivíduos e
os resultados obtidos demonstraram ser satisfatórios mesmo 9 anos após
a translocação, porém como não foi realizado a vasectomização dos machos
dominantes, o grupo poderá se restabelecer em longo prazo, ocasionando
novamente os problemas, Todavia, as vantagens desse método são: baixo
custo, realização em curto prazo, os resultados são imediatos e é ideal
para grupos mansos. Uma desvantagem do método é a dificuldade de se
encontrar áreas com condições adequadas para receber os animais translocados.
Ë
importante que se comente que todas as propostas sugeridas acima são
passíveis de serem testadas em relação a reflorestamento de Pinus.
Entretanto fica claro que a associação de vários métodos é a melhor
estratégia a ser adotada na busca de soluções para esse problema.
Acreditamos
que existe a necessidade urgente de se realizar mais estudos para que
se possa desenvolver e planejar um maior número de medidas que venham
a solucionar o problema causado por mais essa nova praga florestal,
mas que também venham de encontro a interesses preservacionistas para
Cebus apella.
Bibliografia
FREESE,
C.H.; OPPENHEIMER, J.R. 1981. The capuchin monkeys, genus Cebus In:
COIMBRA-FILHO, A.F.; MITTERMEIER, R.A. Ecology and behavior of neotropical
primates. Academia Brasileira de Ciências, Rio de Janeiro-RJ,
v.1, p.1-496.
ESCOBAR-PARAMO,
P. 1989. Social Relations Between Infants and Other Group Members in
the Wild Black-Capped Capuchin (Cebus apella). Field studies
of new world monkeys, La Macarena Colombia, v.2, p.57-63.
HILL,
W.C.O. 1960. Primates; Comparative Anatomy and Taxonomy. Edinburgh
University Press, Edinburgh, v. IV.
IZAWA,
K & MIZUNO, A. 1977. Palm fruit cracking behavior of wild black-capped
capuchin (Cebus apella). Primates. v.18, 773-792.
IZAWA,
K. 1980. Social Behavior of the Wild Black-Capped Capuchin (Cebus
apella). Primates, v.31, p.443-467.
PIZANI,
A. J. 1997. Alerta sobre os riscos de acidentes ocasionados pelo ataque
de macaco-prego (Cebus apella) em floresta de Pinus spp.:
Estudo de casos. Monografia. Setor de Ciências Agrárias – Escola de
Florestas. Universidade Federal do Paraná. Curitiba –Pr.
ROCHA,
V.J. 1992. Desenvolvimento de um método de manejo envolvendo um grupo
de macacos-pregos (Cebus apella) em condição semi-selvagem no
Horto Florestal da UEL, Londrina-Pr. Monografia (Zooecologia)- Centro
de Ciências Biológicas, Universidade Estadual de Londrina. Londrina-Pr.
ROCHA,V.J;
REIS, N. R & SEKIAMA, M.L "Uso de ferramentas por Cebus apella (Linnaeus)
(Primates, Cebidae) para obtenção de larvas de coleoptera que parasitam
sementes de Syagrus romanzoffianum (Cham.) Glassm. (Arecaceae)" , Revista
Brasileira de Zoologia 15(4): 945-950, 1998.
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