Queima Controlada

1. Introdução

O fogo (principalmente a queima de madeira) tem estado intimamente ligado a espécie humana desde os primórdios da civilização, seja pelos benefícios que oferece ao homem ou por ter causado grandes catástrofes. Na área florestal pode trazer muitos efeitos positivos se for utilizado de forma adequada.
Por definição queima controlada é a aplicação controlada do fogo em combustíveis, tanto no estado natural como alterado sob determinadas condições de clima, de umidade do material combustível, de umidade do solo, entre outros, de tal forma que o mesmo seja confirmado a uma área pré-determinada e produza a intensidade de calor e a taxa de propagação para favorecer certos objetivos do manejo.

2. Objetivos

- Reduzir o acúmulo de material combustível em povoamentos.
- Facilitar e induzir o surgimento de um sub-bosque imprescindível ao equilíbrio ecológico.
- Acelerar a decomposição das acículas em povoamentos jovens de Pinus app.
- Preparo do terreno.
- Controle de espécies indesejáveis.
- Melhorias do habitat para a fauna silvestre.
- Controle de parasitas e doenças.

3. Condições de Uso

O fogo controlado só deve ser usado após um diagnóstico cuidadoso que indique que ele é mais seguro, barato, eficiente e prático que outros tratamentos.
3.1 Material combustível florestal

O material combustível mais oxigênio e a temperatura de ignição compõem o triângulo de fogo. Sendo o material combustível o único elemento sobre o qual se pode atuar diretamente.

Definição: - Material combustível florestal é qualquer material orgânico, vivo ou morto, no solo ou acima deste, capaz de alterar em ignição e queimar.

Grupos de Combustíveis Florestais - São classificados de acordo com sua distribuição vertical, em três grupos:

- Combustíveis de solo
- Superficiais
- Aéreos

Combustíveis de solo são todos os materiais que estão abaixo da superfície da floresta tais como: húmus, raízes de árvores, tocos em decomposição e turfa. Como combustíveis superficiais são classificados todos os materiais depositados sobre o piso da floresta tais como: folhas, ramos, galhos, casca, cones e frutos que ainda não estão totalmente decompostos, incluindo as herbáceas e os arbustos com até 1,8m de altura.
Como combustíveis aéreos incluem-se os materiais localizados no sub-bosque e na parte superior da copa das árvores, separadas das superfície da floresta por uma altura superior a 1,8m. (ramos, folhas, casca, galhos secos, musgos, líquéns e outras plantas epífitas).
Se considerarmos a sua periculosidade os combustíveis podem ser classificados como:

- Perigosos
- Semi-perigosos
- Verdes

Perigosos - Galhos e ramos pequenos, com diâmetro menor que 1.0cm, folhas liquens, musgos e herbáceas (em estado seco) são materiais que perdem umidade rapidamente, apresentam menor temperatura de ignição, facilitando o início do fogo queimando rapidamente e acelerando a sua propagação.
Semi-perigosos - São materiais geralmente lenhosos como troncos caídos, tocos, galhos e ramos acima de 1.0cm de O, sim de húmus e turfa. São materiais compactados ou de dimensões grossas que queimam lentamente. Apresentam ignição lenta e difícil, porém desenvolvem intenso calor.
Verdes - Vegetação viva existente na floresta ou povoamento. Por possuírem um certo teor de umidade, os combustíveis verdes (exceto as coníferas), são as vezes consideradas não inflamáveis, porém o calor liberado pela combustão de outros combustíveis por levar estes materiais tornando-os inflamáveis.
A quantidade de combustível influencia se o fogo vai se propagar ou não e determina a quantidade de calor que será liberada na queima, a intensidade do fogo é diretamente proporcional à quantidade de combustível que queima, nem todo o material é necessariamente combustível. A quantidade de combustível que está disponível para queimar é chamada de “Combustível Disponível”.
Na prática, combustível disponível é a quantidade de material que normalmente é consumida em um incêndio superficial. Este material “Combustível disponível” depende de outras propriedades como: tamanho das partículas, conteúdo de umidade e continuidade.
O conteúdo de umidade é a mais importante propriedade que controla a infalibilidade dos combustíveis, que vivos ou mortos apresentam diferentes mecanismos de retenção de água e diferentes respostas às variações meteorológicas nos materiais vivos a umidade é mais estável e maior do que o material morto. O material morto responde mais rapidamente às mudanças meteorológicas, sendo o principal responsável pela propagação dos incêndios.
O conteúdo de umidade dos combustíveis mortos flutua principalmente em função da variação da umidade relativa e temperatura do ar, e da precipitação. Partículas finas de combustíveis como folhas secas e pequenos galhos podem variar de umidade consideravelmente em poucas horas. Porém para materiais de dimensões maiores como troncos de árvores, são necessários vários dias ou semanas para que ocorra uma variação significativa no conteúdo de umidade.
A compactação é uma outra característica importante do material combustível. A compactação é o espaçamento entre materiais combustíveis e de ar em uma determinada quantidade de combustível. A compactação afeta principalmente a taxa de secagem e a velocidade de propagação dos combustíveis.
A continuidade refere-se a distribuição dos combustíveis tanto horizontal como vertical. A continuidade controla parcialmente onde o fogo pode ir e a velocidade com que se propaga. A continuidade horizontal é a distribuição uniforme do combustível sobre uma área, de forma a possibilitar ou não a propagação linear ou horizontal do fogo. A distribuição vertical se deve à disposição dos combustíveis a diversas alturas, como se fossem degraus de uma escada.

3.2 Uso do fogo no preparo do terreno

O fogo é considerado o instrumento mais barato para o preparo de terrenos para o plantio, tanto de espécies agrícolas como florestais, pois os resíduos de exploração ou restos de culturas anteriores são barreiras físicas para o plantio manual ou mecânico. Custa 10% do valor de qualquer outro tratamento para o preparo do solo para plantios sendo também, uma das poucas alternativas para terrrenos acidentados.
Outro aspecto do fogo diz respeito a regeneração natural como ocorre em povoamentos de bracatinga.

3.3 Controle de espécies indesejáveis

O uso de queima controlada para controlar espécies indesejáveis e recomendado desde que estas sejam mais sensíveis ao fogo do que aquelas que se deve proteger.
Por exemplo para controlar a regeneração do sub-bosque em povoamentos de pinos, onde não é viável o controle cultural, ou químico a queima controlada é uma alternativa viável.

3.4 Controle de pragas e doenças

A queima controlada também pode ser utilizada para erradicar culturas ou indivíduos contaminados com pragas ou doenças, sendo mais utilizadas em áreas agrícolas.
ex: - Fungos
Insetos como serradores ou a mariposas (Ex - Glenna spp.).

3.5 Melhoria de pastagens

O fogo controlado pode ser utilizado no manejo de pastagem, aumentando a palatabilidade, qualidade, quantidade e disponibilidade de gramíneas e ervas forrageiras a sua ação ocorre sob o material seco de baixo valor nutricional, que dá lugar à nova brotação, com maior teor de proteína, fósforo e cálcio que ficam disponíveis rapidamente.

3.6 Melhoria da estética

Nestes casos a queimas controladas visa manter área limpas dos povoamentos, aumentar o número e a visibilidade de fatores, provocar mudanças nos tipos vegetais, atração da fauna, etc.

4. Técnicas de Queima

4.1 Queima contra o vento

Consiste em fazer o fogo progredir na direção contrária ao vento. O fogo pode ser iniciado ao longo de uma linha de base preparada, que pode ser uma estrada, um aceiro, um córrego ou outra forma de barreira e deixa-se que prossiga contra o vento. É considerada a técnica mais fácil e segura de queima controlada desde que o vento seja constante tanto em direção como em velocidade. Pode ser usada em grandes concentrações de combustíveis.
Desvantagens - Tempo gasto na operação; necessidade da construção de aceiros no interior da área em intervalos freqüentes; presença de ventos com velocidade entre 6.5 e l6 km/hora para que a fumaça seja bem dissipada e o calor não suba diretamente para a copa das árvores; não deve ser utilizada em áreas inclinadas. Esta técnica é recomendada para a primeira redução de combustível nos povoamentos.


4.2 Queima em faixas a favor do vento

Consiste em se colocar uma linha de fogo ou uma série de linhas de fogo de tal forma que nenhuma linha individual possa desenvolver alta intensidade antes de encontrar outra linha de fogo ou aceiro. A distância entre as linhas varia de 20 a 60 metros. Freqüentemente usa-se uma combinação da queima a favor e da queima contra o vento para tratar uma área. Este método é relativamente rápido, flexível e geralmente de custo moderado. Pode ser usado para reduções periódicas de combustível no interior das plantações, desde que a primeira redução tenha sido feito através da técnica contra o vento.

Desvantagens

Necessidade de acesso no interior da área; aumento da intensidade no encontro das linhas de fogo que aumentam a possibilidade de crescimento das copas.

4.3 Queima de flancos

Consiste em acender linhas de fogo paralelas à direção do vento, de modo que o fogo se propague formando um angulo reto com o mesmo. Este método de queima não deve ser utilizado quando ocorrem alterações na direção do vento, porém é muito útil em pequenas áreas ou para facilitar a queima de grandes áreas em períodos de tempo relativamente curtos.

4.4 Queima em manchas

Emprega uma série de pequenos pontos ou círculos de fogo que queimam em todas as direções mas vão se encontrar antes de se tornarem muito grandes propagando-se violentamente. Quando utilizados em áreas de resíduos de exploração, deve-se estar atento para que os pontos de fogo não fiquem distanciados entre si mais do que 40 a 60 metros, para se evitar que se crie zonas com aumento de intensidade, nem tão longe que possa permitir que pontos individuais se tornem queimas indesejáveis a favor do vento. Uma equipe bem treinada pode queimar extensas áreas em pouco tempo.

4.5 Queima central (ou em Anel)

Vários pontos de fogo, em forma mais ou menos circular, são acesos no centro da área. A propagação destes ponto de fogo vai se acelerar a medida que a medida que a liberação de calor aumenta, formando uma ativa coluna de convecção. Em áreas maiores de 40 ha, uma segunda série de pontos de fogo é iniciada (formando um anel em volta da primeira), entre 15 e 30 metros do limite externo da área. Devido a forte coluna de convecção criada na região central, o fogo não se propaga com muita intensidade na direção dos limites externos da área.
É uma técnica bastante utilizada em atividades florestais, principalmente na eliminação de resíduos de exploração, para o preparo do terreno para o plantio ou para melhorar o habitat da fauna silvestre em pequenas aberturas ou clareiras na floresta.

4.6 Queima em V (ou Chevron)

Utilizada para queima de áreas montanhosas. Consiste em acender linhas de fogo simultaneamente, partindo de um único ponto no ápice da montanha, fazendo com que progrida para a parte baixa basicamente este método envolve o conceito da queima de flancos, exceto que as linhas de fogo não são paralelas.

5. Aplicação da Queima Controlada

As queimas devem ser utilizadas quando existe a real necessidade da sua aplicação. Observando-se quais serão os benefícios e os danos causados pelas mesma. Deve ser considerado o fato de que a ação do fogo sobre qualquer área não são nunca totalmente benéficas sendo imprescindível estabelecer a estação do ano mais favorável, a melhor hora do dia e o correto intervalo entre as queimas.

5.1 Estação do ano

A decisão da melhor estação ano para a realização de queimas depende de vários fatores como os objetivos da queima, tipo de vegetação, época de maior perigo de incêndio, quantidade de combustível, hábitos da fauna silvestre local e condições climáticas. Normalmente as melhores estações para queima são o outono e o inverno, porém dependendo dos objetivos pode ser viável utilizar o fogo em outras épocas do ano.
Se o objetivo da queima for o preparo do terreno que requer intensidades mais altas, talvez o verão seja a estação mais indicada, devido á temperatura do ar ser mais alta. Na primavera as queimadas quase não são recomendadas, devido a intensa atividade vegetativa das árvores, e pelos danos potenciais a fauna. Outro fator a se considerar sobre as queimas controladas é que as árvores danificadas pelo fogo na primavera ou no verão estarão suscetíveis ao ataque de fungos doenças antes de estarem recuperadas por outro lado, as áreas danificadas no outono ou no inverno terão mais tempo para recuperação antes da estação de maior proliferação de pragas e doenças.

5.2 Hora do dia

A determinação da melhor hora do dia para o início de uma queima é feita com base na necessidade de controle do fogo, objetivos da queima e aspectos de dispersão da, exatamente neste ordem de prioridade. As queimas podem ser feitas de dia ou a noite, emborca de dia seja mais recomendável, principalmente porque neste período ocorre dispersão da fumaça, além do que os custos de pessoal administrativos são inferiores.
Porém existem situações em que a queima noturna é recomendável, como na primeira queima para redução de material combustível no interior de plantações jovens, onde o período noturno apresenta condições climáticas adequadas, temperatura mais baixa e umidade mais alta, gerando um fogo com intensidade menor e consequentemente menor risco de dano às árvores.

5.3 Intervalo entre as queimas

De maneira geral um dos mais importantes usos da queima controlada é a redução do material combustível. Por este motivo as queimas devem ocorrer em intervalos em que as acumulações de combustível sejam críticas. A determinação destes intervalos são importantes para evitar por exemplo a gradativa degeneração do solo, (causada por queimas anuais). ou o aumento de risco de danos em um incêndio com o excesso de combustível quando as queimas ocorrem em intervalos muito grandes. Alguns autores afirmam que intervalos de 3 anos são os mais adequados, pois não prejudicam o solo e mantém a quantidade de material combustível em níveis seguros.

5.4 Plano de queima

Por ser um trabalho altamente técnico que exige conhecimentos do comportamento do fogo, seus efeitos sobre o ambiente e técnicos de combate, a queima controlada necessita da elaboração de um plano escrito e detalhado para cada queima. Os principais pontos abordados em um plano de queima controlada são:

a) Descrição e localização da área a ser queimada. Incluindo tipo de vegetação, topografia, tipo e quantidade de combustível, hectares a serem queimados, um mapa com aceiros, limites da área, estradas, etc.

b) Objetivos da Queima - Definindo as razões para a utilização do fogo, qual a ação esperada do fogo, quanto material combustível será consumido, seu efeito sobre as espécies arbóreas, intensidade, altura de crestamento, etc.

c) Condições Climáticas Ideais - Com base no comportamento do fogo estabelecer os limites dos fatores climáticos (temperatura do ar, velocidade e direção do vento, umidade relativa e índice de perigo do fogo condições sob as quais a queima pode ser realizada sem danos ao ambiente.

d) Técnica de Queima - O método de queima a ser usado depende da quantidade de combustível e da intensidade de fogo desejada. (ex:. queima contra o vento).

e) Vigilância, Controle e Rescaldo - A vigilância durante o transcorrer de uma queima controlada é imprescindível para que o fogo fuja de controle, bem como o rescaldo que se deve eliminar todos os vestígios de fogo remanescentes após o término da queima.

f) Avaliação da Queima- Deve ser realizada após a queima registrando a data, hora da queima e comportamento do fogo observados (velocidade de propagação, intensidade, altura de crestamento e quantidade de combustível consumida), bem como os registros das condições climáticas e os efeitos do fogo sobre o ambiente. Todos estes fatores irão determinar a eficiência da queima.

6. Bibliografia Consultada

SOARES, R. V. Incêndios Florestais - Controle e Uso do Fogo. Curitiba : FUPEF, 213 p, 1985.

SOARES, R. V. Prevenção e Controle de Incêndios Florestais. Curitiba : FUPEF, 72 p, 1979.

BATISTA, A. C. Incêndios Florestais. Recife : Universidade Federal Rural de Pernambuco - Curso de Eng. Florestal. 115 p, 1990.

BATISTA, A. C. Avaliação da Queima Controlada em Povoamentos de Pinus taeda L. no Norte do Paraná. Curitiba. Tese (Doutorado em Eng. Florestal), Setor de Ciências Agrárias, UFPR. 108 p, 1995.