Ácaros Fitófagos na Cultura da Erva-mate (Ilex paraguariensis St. Hill.) no Brasil

Dalva Luiz de Queiroz Santana(1), Luis Francisco Angeli Alves(2)

(1) Embrapa Florestas, Estrada da Ribeira, Km 111, Colombo, PR. C. P. 319, 83411-000 Colombo - PR, Aluna do Curso de Pós graduação em Entomologia, Depto. de Zoologia, UFPR dalva@cnpf.embrapa.br;

(2) Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Centro de Ciências Biológicas e da Saúde, Laboratório de Zoologia, Rua Universitária, 2069, Cascavel, PR. CEP: 85814-110, e-mail: lasg@unimidia.com.br

RESUMO

A cultura da erva mate, praticada principalmente na Região Sul do Brasil, passou por severas modificações nas últimas décadas, saindo da exploração extrativista, para a prática de plantios homogêneos tecnificados. Com isto surgiram muitos problemas de ordem fitossanitária, notadamente a proliferação de ácaros fitófagos. Em levantamentos realizados na Região Sul do Brasil foram identificadas três espécies de ácaros fitófagos relacionados à cultura da erva-mate: Dichopelmus notus Keifer (Acari: Eriophyidae), Oligonychus spp. (Acari: Tetranychidae) e Polyphagotarsonemus latus (Banks) (Acari: Tarsonemidae). Estas espécies são consideradas pragas na Argentina, onde foram bastante estudadas. Os ácaros do gênero Oligonychus e o ácaro P. latus são pouco específicos, utilizando várias espécies de plantas como hospedeiras, além da erva-mate. Contudo, D. notus, conhecido como "ácaro do bronzeado", é praga específica da erva-mate. Ataca as brotações novas, causando bronzeamento, encarquilhamento e queda prematura de folhas, afetando diretamente a produção. Atualmente, na maioria dos plantios comerciais, a prática do controle químico é freqüente, embora não existam produtos registrados para esta cultura. Por outro lado, estudos recentes demonstram que o controle biológico surge como uma alternativa viável, dentro do manejo integrado desta praga.

PALAVRAS-CHAVE: ácaro, Eriophyidae, Tetranychidae, Tarsonemidae

SUMMARY

The "erva-mate" plantations, practiced mainly in the South region of Brazil passed by severe modifications in the last decades, leaving the extractive exploration, for the practice of technical and homogeneous plantations. After that, many pest problems appeared, notably the proliferation of phytophagous mites. In risings accomplished in the South region of Brazil they were identified three species of phytophagous mites related to the "erva-mate" plantations: Dichopelmus notus Keifer (Acari: Eriophyidae), Oligonychus spp. (Acari: Tetranychidae) and Polyphagotarsonemus latus (Banks) (Acari: Tarsonemidae). These species are considered pests in Argentina, where they were quite studied. The mites of the genus Oligonychus and P. latus are not very specific, using several species of plants as host, besides "erva-mate". However, D. notus, well known as "mite of the brownish", is specific pest of the "erva-mate". It attacks the fresh shoots, causing, curly and premature fall of leaves, affecting directly the production. Actually, in most of the commercial plantations, the practice of the chemical control is frequent, although there is no one registered product for this culture. On the other hand, recent studies demonstrate that the biological control appears as a viable alternative, inside of the integrated pest management.

KEY-WORDS: Eriophyidae, Tetranychidae and Tarsonemidae mites

INTRODUÇÃO

Os primeiros relatos sobre a ocorrência de ácaros fitófagos foram feitos no final da década de 30, no Rio Grande do Sul, destacando a presença de eriofiídeos (PARSEVAL, 1939).

Após estas primeiras observações nenhum outro estudo foi desenvolvido visando identificar esta e outras espécies correlacionadas com a cultura da erva mate no Brasil. Embora não se tenha feito um acompanhamento, aparentemente as populações de ácaros sempre estiveram presentes na cultura e se proliferaram nos últimos anos. Entretanto, na Argentina, três espécies de ácaros se tornaram muito importantes como pragas da erva-mate: Dichopelmus notus Keifer (Acari: Eriophyidae), Oligonychus spp. (Acari: Tetranychidae) e Polyphagotarsonemus latus (Banks) (Acari: Tarsonemidae). As três espécies são abordadas por DE COOL & SAINI (1992), que descrevem seus aspectos biológicos e danos, conforme descrito abaixo.

1) Dichopelmus notus Keifer: conhecido vulgarmente como ácaro do bronzeado da erva-mate apresenta coloração que varia do branco, passando pelo amarelo até o marrom, dependendo da maturidade das folhas que lhes servem como alimento. Possuem na parte superior dois cornitos, ou círculos, formados por pequenos pontos brancos. As fêmeas colocam de 20 a 30 ovos na sua vida. A fase de ovo a adulto demora cerca de 10 dias. Os adultos podem viver mais de 20 dias, a uma temperatura ótima de 25ºC. É muito móvel e encontrado durante todo o ano, com variações sazonais nos picos populacionais. Provoca o bronzeamento e queda de folhas afetando o crescimento e a produção.

2) Oligonychus yothersi: Espécies deste gênero são normalmente denominadas de "ácaros vermelhos". Caraterizados pela teia que produzem, apresentam também ovos globosos e vermelhos. As ninfas são de coloração amarelada e os adultos de cor vermelha amarelada, sendo que preferem a superfície dorsal das folhas, sendo a colônia protegida por filamentos sedosos que formam a teia. Estes ácaros atacam folhas jovens, porém com preferência para adultas, provocando o bronzeado e, os ataques severos, podem igualmente provocar desfolhação. Normalmente atacam em reboleiras.

3) Polyphagotarsonemus latus (Banks): conhecidos vulgarmente por ácaro branco, esta espécie ataca inúmeras espécies de plantas. Os ovos são brancos e hialinos de forma ovalada e convexa. As ninfas possuem coloração branca hialina, com manchas opacas sobre o abdômen. Os adultos são brancos amarelados e brilhantes. Os ovos são colocados na parte inferior da folha e eclodem em 3 dias aproximadamente. Na erva-mate causa o prateado das folhas, de consistência áspera. Estes sintomas são detectados tanto em plantas de viveiro, como em plantio definitivo.

Segundo TRUJILLO (1995), com o aumento da densidade dos plantios de erva-mate ocorrido na década de 70, houve um grande impacto na produtividade, aumento no uso de fertilizantes e pesticidas e práticas culturais. Com isto observou-se um aumento populacional de pragas-chave e o aparecimento de algumas consideradas anteriormente como secundárias, incluindo-se os ácaros fitófagos. Por outro lado não houve um aumento significativo nas populações de inimigos naturais, como por exemplo, os ácaros das famílias Phytoseiidae e Stigmaeidae. Segundo este autor, o uso de inseticidas não é o único fator de desequilíbrio biológico nos ervais, mas faz parte de um complexo de ações que vêm modificando há várias décadas o ecossistema ervateiro. Este recomenda como táticas de manejo dos ervais otimizar a densidade, sem, no entanto impedir a penetração da luz e arejamento do erval.

DANOS

Ao longo de aproximadamente 50 anos a situação passou despercebida até que estes artrópodos passassem a despertar o interesse de produtores uma vez que os danos se tornaram mais evidentes. Assim, SANTANA et al. (1997) realizaram observações sobre a ocorrência de ácaros em ervais no sul do Brasil, destacando três espécies: Dichopelmus notus (conhecido por ácaro do bronzeado), Oligonychus yothersi (ácaro vermelho) e Polyphagotarsonemus latus (ácaro branco), sendo este último mais freqüente nos viveiros de mudas. Os danos destas pragas são bastante visíveis, e de acordo com observações feitas por CHIARADIA & MILANEZ (1998), ALVES et al. (2000) e SANTANA et al. (2000), podem ser resumidamente caracterizados como decorrentes dos danos às células da planta, que resulta no aparecimento de pontuações escuras, as quais evoluem para manchas necróticas e bronzeamento. As folhas atacadas podem, quando muito jovens ter seu crescimento reduzido ou interrompido com conseqüente queda foliar prematura, resultante da própria destruição do tecido foliar, bem como pela inoculação de toxinas. Além disso, tem sido sugerido que os ataques facilitam a entrada de fungos fitopatogênicos (Figuras 1 a 6).

CONTROLE

Diante dessa problemática, surge a necessidade de controle, uma vez que tem sido comum a observação de áreas intensamente infestadas com grande perda na produção. Contudo, no Brasil não existem acaricidas registrados para uso em plantios de erva-mate. Isto porque a folha, na forma em que é utilizada pode conter resíduos de tais produtos que podem se concentrar no produto final, ou ainda poluir o ambiente e intoxicar o aplicador. Além disso, o uso de tais produtos, sem o devido conhecimento pode acarretar na eliminação dos inimigos naturais, sem contar na possibilidade de surgiram populações de ácaros resistentes aos produtos, como já se observa em outras culturas.

Vale ressaltar que na Argentina, que é o principal produtor mundial de erva-mate, os estudos sobre as pragas da cultura são muito mais avançados, sendo conhecidos detalhes de ocorrência e danos destas e de outras pragas, sendo inclusive realizados estudos de dinâmica populacional e estabelecidos níveis de controle, com recomendação de diversos produtos para uso nas lavouras.
Assim, o controle de ácaros da erva-mate deve ser realizado com base no Manejo Integrado, mas para que isso seja concretizado, diversas etapas precisam ser seguidas. A primeira delas é estudar a biologia e ecologia da praga, de forma a se conhecer detalhes da sua reprodução e desenvolvimento, as épocas e locais de maior ocorrência e os fatores ambientais que interferem neste processo; ainda no campo, é de grande importância conhecer os inimigos naturais que podem estar atuando no controle biológico natural e qual seu potencial de exploração como agentes de controle em grandes áreas. Em segundo lugar é necessário determinar o nível de dano econômico para então se definir o nível de controle.

Atualmente a forma mais usual de controle destas pragas, em outras culturas é através de acaricidas químicos que, na erva-mate, embora não sejam registrados, vêm sendo também empregados. Contudo, embora sejam eficientes, as aplicações requer estudos básicos de eficiência e segurança, porém, pelas próprias características da cultura (arquitetura da planta e forma de cultivo), pode-se perfeitamente pensar na real possibilidade de uso do Controle Biológico de ácaros, seja por meio de ácaros ou insetos predadores ou ainda microrganismos entomopatogênicos.

Diversos trabalhos mostram o potencial dos agentes bióticos, para o controle de ácaros em várias culturas como: mandioca, seringueira, morango, citros, cultivos protegidos de olerícolas, entre outras, em conjunto ou isoladamente a outras estratégias de controle.

De um modo geral, as populações de ácaros fitófagos têm como seus principais inimigos naturais patógenos (principalmente fungos) e ácaros das famílias Phytoseiidae, Bdellidae, Anystidae, Stigmaeidae e Cheyletidae (FLECHTMANN, 1989).
Na cultura da erva-mate, SAINI & DE COLL (1993), TRUJILLO (1995), salientam a importância dos ácaros da família Stigmaeidae e Phytoseiidae como importantes predadores de ácaros fitófagos, sendo que há registros do gênero Agistemus sp. e Euseius inouei. Além disso, verificou-se a ocorrência de Histethorus istrio (Coleoptera: Coccinelidae) alimentando-se do ácaro vermelho, em todas as de desenvolvimento, sendo verificada, em condições de laboratório, sua elevada capacidade predatória (ALVES, 2001) (dados não publicados).

No Brasil, pelo fato dos ácaros na cultura da erva-mate serem uma recente preocupação, existem poucos trabalhos sobre seu controle. Contudo, uma série de estudos, que visam implementar estratégias do Manejo Integrado, está em desenvolvimento no Brasil. Neste sentido, VIEIRA NETO & CHIARADIA (1999) desenvolveram um plano de amostragem para o D. notus e a Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), em conjunto com a Embrapa/Florestas e contando com apoio financeiro do CNPq e Fundação Araucária, vêm desenvolvendo um amplo projeto que envolve o estudo da dinâmica populacional dos ácaros, estudo da biologia e comportamento e desenvolvimento de estratégias de controle, químico e biológico. Neste projeto, estão envolvidos também pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (ESALQ/USP).

Os resultados preliminares mostram que a variação populacional está relacionada às condições climáticas e características fenológicas das plantas, verificando-se a influência das podas para colheita, devendo este estudo se estender até 2003. Além disso, o potencial de controle de fungos entomopatogênicos, foi realizado um estudo de seleção de isolados de Beauveria bassiana, sendo obtidos, em condições de laboratório, valores elevados de mortalidade, indicando o potencial destes inimigos naturais, devendo ainda ser realizados novos experimentos em condições de campo.

Como forma de conhecer os efeitos de produtos químicos acaricidas, experimentos são realizados em condições de laboratório, visando-se verificar além da eficiência (através da mortalidade dos indivíduos), efeitos fisiológicos secundários e também a compatibilidade em relação aos inimigos naturais.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, L. F. A. et al. Damage characterization of Oligonychus yothersi (ACARI: TETRANYCHIDAE) to erva-mate (Ilex paraguariensis) (AQUIFOLIACEAE) In: INTERNATIONAL CONGRESS OF ENTOMOLOGY, 21., 2000, Foz do Iguaçu. Abstracts. Londrina: Embrapa Soja, 2000. v. 1, p.4.

CHIARADIA, L. A. ; MILANEZ, J. M. Localização do "ácaro-do-bronzeado" Dichopelmus notus Keifer (Acari, Eriophyidae) e causa do dano na planta de erva-mate. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ENTOMOLOGIA, 17., 1998, Rio de Janeiro. Resumos. Seropédica: UFRRJ, 1998. v.2, p. 1037.

COLL, O. R. de; CACERES, M. S. Determinación de la fluctuación poblacional del "ácaro del bronceado de la yerba mate" Dichopelmus notus Keifer (Acari: Eriophyidae) y sus enemigos naturales. In: WINGE, H. et. al. (Org.). Erva-mate: biologia e cultura no Cone Sul. Porto Alegre: Ed. da Universidade /UFRGS, 1995. p. 121-128.

COLL, O. R. de; SAINI, E. D. Insectos y acaros perjudiciales al cultivo de la yerba mate en la Republica Argentina. Montecarlo: Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuaria, 1992. 48 p. (INTA. Publicación, 1).

FLECHTMANN, C. H. W. Ácaros de importância agrícola. São Paulo: Nobel, 1989. 189 p.

KURTZ, V. D. Ventajes comparativas del manejo integrado de cultivos de alta densidad. In: WINGE, H. et. al. (Org.). Erva-mate: biologia e cultura no Cone Sul. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1995. p. 197-205.

PARSEVAL, M. Eriófidas no Brasil. Revista Agronômica, Porto Alegre, v. 3, n. 30, p. 511-517, 1939.

SAINI, E. D.; COLL, O. R. de. Enemigos naturales de los insectos y ácaros prejudiciales al cultivo de la yerba mate en la Republica Argentina. Montecarlo: Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria, 1993. 32 p. (INTA. Publicación, 2).

SANTANA, D. L. Q. et al. Ácaros em erva-mate (Ilex paraguariensis) no Sul do Brasil. In: CONGRESSO SUL-AMERICANO DA ERVA-MATE, 1.; REUNIAO TECNICA DO CONE SUL SOBRE A CULTURA DA ERVA-MATE, 2., 1997, Curitiba. Anais. Colombo: EMBRAPA-CNPF, 1997. p. 464. Resumo.

SANTANA D. L. Q.; ALVES, L. F. A.; PUCCI, P. S. B. Polyphagotarsonemus latus (ACARI: TARSONEMIDAE) damages in erva-mate seedlings. In: INTERNATIONAL CONGRESS OF ENTOMOLOGY, 21., 2000, Foz do Iguaçu. Abstracts. Londrina: Embrapa Soja, 2000. v. 1, p.17.

TRUJILLO, M. R. Agroecosistema yerbatero de alta densidad: plagas y enemigos naturales. In: WINGE, H. et. al. (Org.). Erva-mate: biologia e cultura no Cone Sul. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1995. p. 129-134.

VIEIRA NETO, J.; CHIARADIA, L. A. Amostragem de Dichopelmus notus Keifer (Acari, Eriophyidae) na cultura da erva-mate. Pesquisa Agropecuária Gaúcha, Porto Alegre, v. 5, n. 2, p. 357-361, 1999.

Figura 1 - Desfolha provocada pelo ácaro-vermelho e ácaro do bronzeado, plantas de erva-mate

Figura 2 - Detalhe dos danos de Oligonychus yothersi em folhas de erva-mate

Figura 3 - Colônia de Dichopelmus notus em folha de erva mate

Figura 4 - Danos provocados Dichopelmus notus em folhas de erva-mate

Figura 5 - Danos provocados Polyphagotarsonemus latus em mudas de erva-mate
(Foto e arte: Francisco Santana)


Figura 6 - Danos provocados por Polyphagotarsonemus latus em mudas de erva-mate
(Foto e arte: Francisco Santana)